domingo, abril 18, 2010

Malvasia



















Rubro néctar que aflora
Nos teus lábios de cetim
Desejo que se demora
Que arde dentro de mim

Pétalas da tua boca
Tocadas por minha mão
Palavras quedas e roucas
Nascidas em coração

O movimento dos dedos
Numa carícia enlaçados
Que a emoção faz tremer

Malvasia de segredos
Entre amantes partilhados
Na sinfonia do prazer!

terça-feira, abril 13, 2010

Sou


E, no amargo de um cigarro, vejo todo o meu passado reconstruir-se e a minha memória antiga a desfazer-se no ar como anéis de fumo. E tomo consciência que sou o que resta de Cesário depois de subtrair Caeiro.


"Pessoas, Plural de Pessoa" - Foto de Joana Dias

Eu vejo mais com o sentir que com os sentidos...











Não é com os olhos que tenho
que vejo o mundo à minha frente,
é com o meu sentir, que tudo fica diferente.

Porque eu vejo mais com o sentir que com os sentidos!

segunda-feira, abril 05, 2010

Pessoas I


Alexandre Oliveira na peça: "Pessoas, plural de Pessoa",
Ramada, 27 de Março de 2010

Sair da cama, de manhã, como quem se deita
e adormecer ao contrário,
para que, em vez de me esquecer dos sonhos,
me esqueça de mais um dia
que vivi completamente ao invés
daquilo que queria viver.

O infinito não é mais
que enganar a morte em todas as esquinas!

quarta-feira, março 24, 2010

Só pra dizer que T'amo! (usando o Dinossáurio)


Se eu tivesse um dinossáurio
Daqueles pesados, enormes…
Escrevia-te um soneto
Enquanto dormes.

E das rimas que assim fizesse,
Pelo fontanário ortográfico,
Encher-te-ia a horta do coração
De tráfico.

Eu e os outros pretendentes
Como vínculos num engarrafamento
Esperávamos a nossa vez
Com paciente enervamento.

Porque tu és muito linda
És de todas a mais bela,
És assim como um cruzamento
Entre a Erva e a Cinta dela.

E depois de ter as rimas
Vou meter-lhe a melancia
Escolho um tema bem fixo
Que a malta até curtia

Faço depois a barba,
Ponho vaselina no cabelo,
Ponho Colónia no sovaco,
Tiro do nariz o pêlo.

Quando tiver a fazer a cena,
Uso um soquete bacano,
Assim como uma mistura,
Meio português-brazuca-angolano.

Vou dizer que és minha Dama
E serei pra sempre o teu Damo.
E fiz isto para ti,
Só pra dizer que t'amo!

terça-feira, março 23, 2010

Sou como a papoila



Sou sangue quente
Em prado seco
Estival revolta
Da macia ternura.
Sou ópio,
Proibido,
Sou loucura...
Toque fugaz
Das pétalas dos meus dedos.
Sou vício, sou silêncio,
Vento que te sopra nos cabelos.

Sou Primavera em flor
sem andorinha.
Sou gestos de amores por inventar
Carícias em segredo
Fugidias,
Poema vermelho
No verde mar.

Serei assim,
Livre, enquanto me quiseres.
Tudo o que me dás cresce em mim.
Sou como a papoila:
Possuir-me é apressar-me o fim.

sábado, fevereiro 27, 2010

Se me vires por aí...

Se me vires por aí,
perdido sem saber o norte,
acolhe-me.

Aperta-me no teu regaço,
afaga-me no teu seio,
diz que não vais deixar que aconteça
o que eu mais receio.

E mesmo que não o sintas,
que saibas que é tudo mentira, sorri...
e diz-me com a voz doce com que me fazes encantar,

diz o que quiseres,
como quiseres,
porque se tu disseres
eu vou acreditar.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Sal



Lembro-me do Sol
e do azul do Mar
da terra distante,
o horizonte, um instante,
um doce veleiro
a navegar.

Lembro de ti,
sentada à ré,
com as pernas cruzadas
algumas madeixas em desalinho
eras princesa
no suave barquinho
que tão bem enfeitavas!

Eu de pé na proa
mirando
o moreno da tua pele
com o desejo
a pintar-me imagens loucas,
aventuras ousadas,
perdido entre as vagas
do mar
salpicando atrevido
as tuas longas coxas.

Ferve-me no peito a paixão
tremendo desvario
de um delírio terminal.
Invade-me o desassossego
desse desejo animal
caricia feita vento
boca pele e num momento
lamber de ti o teu sal!

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Chama - A Partir de uma fotografia de Luciana Fonseca


De Mrs. Lucciana • Albuns: Fotografias

Sinto o teu calor
e a luz intensa
no secreto arder
que me atormenta

Quero er pavio
que a tua chama
alimenta

Quero que me guardes
me protejas do frio.

Quero ser leite no teu mel,
ser fluxo no teu rio.

Por mais quente a chama,
conforta sem queimar
aquele que ama
aquele que a ousa amar!

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

SE...



Se o Sol gravasse no teu peito o meu nome
Se em labaredas acendesse o desejo
E a tua carne em vermelho fogo
Consumisse os meu dedos?

E sem mãos não pudesse mais escrever.

E se num louco beijo perdesse a língua
E num abraço os braços,
E os olhos cegassem ao ver-te.

Que seria eu?

Sem palavras escritas,
falada ou ditas
num olhar cúmplice
e silencioso .

É que o amor não se faz mudo,
E o poeta sem dizer
é um amante castrado
que não merece viver!

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Anjo perdido

Sou anjo sujeito ao demónio maroto que me atormenta.
Mostra o inferno de portas douradas que muito me tenta!
Fala de amor, de carne, prazer e de sedução.
E me deixa sonhar, me deixa perder, me turva a razão.

E tu me disseste, na calada da noite, que rezasse sozinho.
Que no escuro procurasse, até encontrar o mais certo caminho.

Ouvi tua voz, que falava baixinho, chamava por mim.

Sou anjo perdido e, eternamente, serei assim!



Francisco Goya - O Sono da Razão

domingo, janeiro 03, 2010

Paradigma tempo

É lenta a madrugada
mas o crepúsculo
cede breve ao escuro
à noite cerrada.

É estranho,
será só para mim?

Tão lento o começo,
tão fugaz o fim!

domingo, dezembro 13, 2009

Rafa Freitas - A força de um poema

É impossível ficar indiferente ás palavras sentidas deste poeta urbano de 16 anos que tive o privilégio de conhecer numa tertúlia em Caneças.

segunda-feira, novembro 30, 2009

Diz (uma oração no silêncio)


Foto de João Pedro Sousa


Escuta, já é só silêncio

E está frio aqui.

Escuta, há um espaço imenso

Onde antes estavas tu

E eu nem notava o quanto ele ocupava.

Escuta, está cada vez mais frio

Aqui, onde o silêncio invade

Tudo e o preenche de nada.

Agora fala, diz uma palavra

Para que eu entenda.

Para que acredite.

Para que aprenda.


Rasga de uma vez este muro

frio, esta pedra que nos separa

de forma tão crua

quanto definitiva.


Faz do silêncio a esperança

que a realidade me nega

e diz que tudo tem sentido.


Diz, diz tu, que eu não consigo!


Alexandre

quinta-feira, novembro 26, 2009

Mumúrios


"Whisper" by Maria Hathaway Spencer

Primeiro a consciência plena de mim,
O primeiro passo é sempre
O começo do fim.
Depois o silêncio, a calma profunda,
O esquecer a vida.
E, então, rasgando a vontade
Como uma ave que mergulha no azul do mar,
O desejo que, inexoravelmente, se deixa afogar.

Saltam da memória texturas, aromas,
Santinhas pintadas de azul,
Desfiar de credos e orações.
Depois, ganham ritmo obscenidades,
Insultos, palavrões…
Vagas imensas, penedos rijos,
Espumas frementes.
Línguas, lábios, dedos,
Cabelos mordidos,
Esmagados nos dentes.

E depois Hiroxima, Nagasaki,
Balões de S. João pela noite a voar,
Fogo de artificio no parque,
Sétimo céu, o sétimo sou eu:
E já nada te impede de gritar!

Uma pausa, e o titã adormecido,
Jaz na praia estendido,
Incapaz de articular,
E seus olhos, são prata, são ouro, mercúrio,
E o silêncio se gasta,
No inteligir dum murmúrio.

Alexandre

segunda-feira, novembro 16, 2009

O Silêncio

Por mais que me digam
Que é Natural,
Que faz parte da vida,

A verdade é que,
Quando alguém parte,
Fica um silêncio medonho.

quinta-feira, outubro 29, 2009

Muros - As palavras são pontes.



Imagem retirada daqui


As palavras são pontes por cima dos muros.
São navios sulcando o mar
São sonhos, são desejos, são segredos,
São criatividade, são amizade, são confiança,
São sensações novas.
E as palavras escrevem livros,
Idealizam filmes
Criam canções
Pintam quadros
As palavras nascem de todo o lado
Brotam de um texto,
De uma imagem,
De um som,
E saiem dos meus dedos,
Dos meus lábios
E dos meus olhos,
Para que as vejas,
Para que te beijem
Para que te toquem
E te acariciem.
Para te fazer sentir,
Para te fazer adivinhar
mais do que dizem,
o todo imenso que fica por dizer.

domingo, outubro 25, 2009

Muros - Chão, bancos, cadeiras e poltronas.


Foto de Paulo Pimenta in Blographo


O trono do rei gordo,
por maior que seja,
é cheio até ao bordo,
o espaço não sobeja.

O senhor marquês,
na sua poltrona,
vai alternando a vez
com a sua matrona.

Até as bancadas,
lá do parlamento,
têm almofadas
em cima do assento.

E o Zé Ninguém,
que é gente vulgar,
tem uma cadeira
para se sentar.

Há quem use os bancos
de um modo especial,
eu sento-me e peço
um prego e uma imperial.

Depois ainda há gente,
de mais baixa condição,
que dispensa a cadeira
e senta-se no chão.

Se não há diferença
no homem todo nu,
porquê dar importância
a onde ele põe o cu?