sexta-feira, dezembro 17, 2010

Fio




Corta-me,
abre em mim um rio,
deixa-me cair num fio
deixa-me fluir.

Sorve-me
o aroma do meus passos
o sal dos meus cansaços
deixa-me dormir

Ensina-me
as palavras mágicas do teu tremer
a fome que não se sacia com comer
deixa-me saber

Pinta-me
Numa foto tirada ao espelho
O rosto em tons de vermelho
deixa-me perder

Constrói
Sobre o chão nu uma paliçada
Um mundo novo no meio do nada
e deixa-me erguer!

Avisa-me
que o tempo é um eterno vazio
e que do peito nos escorre em fio
a vontade de viver!

domingo, dezembro 12, 2010

Não tinha amanhã nem madrugada




Não tinha amanhã nem madrugada
nem desejos como as gentes
que vivem silenciosos mais um dia
Não tinha amanhã nem madrugada
Não tinha mulher, amante ou namorada
Não tinha nada

Não tinha amanhã nem madrugada
mas tinha uns olhos vivos
como brasas, e via as pessoas e as casas
e observava. O tempo nunca passava.
Nunca passa, sobretudo para quem
vive deitado com a desgraça
a fome o vazio,
o mijo morno, o chão frio.

Não tinha amanhã nem madrugada
mas a cada novo dia, renascia
e nas mão trémulas segurava um caderno
de argolas com manchas de café
nódoas de fruta e migalhas de pão
e as folhas estavam amarelas
de tanta chuva miudinha cair nelas.

Era um homem, à beira da minha estrada,
e vivia ali, como quem não tinha
amanhã nem madrugada!

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Começar de novo



Um dia disseram ao Sol que. perto do meio dia, bem no alto do Céu iria aparecer o amor de sua vida. O Sol levantou-se de madrugada e foi subindo alegre até chegar ao meio dia ao ponto mais alto do Céu. Como não aparecia ninguém e o tempo ia passando, o Sol foi perdendo o seu brilho e triste se foi embora! Mas no dia seguinte pela manhã ele acordou e de novo fez o percurso alegremente até ao novo meio dia. E continua a fazer isso todos os dias.
Se o Sol não se cansa de começar de novo todos os dias, quem somos nós para desistir?

sábado, novembro 27, 2010

Sunsets - O que ganhamos e o que perdemos?


Há um velho homem que foi levado, nessas viagens que as Câmaras Municipais fazem para ficar bem, a uma exposição de um certo fotógrafo. O tema da exposição era o pôr-do-sol. O homem passeou pela galeria admirando espantado a diversidade de tons, de paisagens, de ambientes, de luz que o fotógrafo captou. E ficou muito apreensivo. No regresso a casa perguntaram-lhe porque é que estava com aquele ar, se não tinha gostado da exposição. O homem pensou um pouco e disse:
- Adorei a exposição, mas não consigo deixar de ter pena do fotógrafo que, concentrado em tirar as fotografias, perdeu todos aqueles lindos pôr-do-sol.

domingo, novembro 14, 2010

Chuva miudinha



Caía a chuva miudinha
e a miudinha à chuva
sorria encolhidinha
debaixo do guarda-chuva!

E a chuva salpicava
molhava por onde podia
a moça não desarmava
e muito contente sorria!

Vendo a chuva cair
traz-me assim à lembrança
roliço rosto a sorrir
a alegria de criança!


quinta-feira, outubro 07, 2010

Há palavras

Há palavras que nos deitam na cama e nos aconchegam os lençóis!
Depois há outras, que também nos deitam na cama mas não nos deixam dormir

quarta-feira, outubro 06, 2010

Outono



Chega o Outono secando as folhas,
doirando o verde que se vai escondendo.
As castanhas assadas anunciam o frio,
as noites longas, os dias curtos.
Os casacos pesados a esconder os corpos,
a alegria das primeiras chuvas
a cair lá fora,
enquanto me imagino à lareira,
que não tenho,
com uma manta sobre os joelhos a ler
O Livro de Cesário.
Gosto do Outono e das doces recordações
que dele me advêm!
No passado os aromas que deixaram marca.
E hoje o sorriso de quem me é tão especial!

sábado, setembro 25, 2010

Ora vá-se lá entender!




Ao saber que era infinito
o espaço mas limitado
fiquei um pouco aflito
com o que havida sido dito
eu que estava embaralhado.

Fui rever minha lição:
O infinito não tem fim
eu que aprendi assim,
ninguém me tira a razão,
seja mestre ou sabichão!

Vá se la entender
as tristes contradições
que nos põem nas lições
e devíamos aprender
Ora, vá-se lá entender!

segunda-feira, agosto 16, 2010

O Quinto Império - Fernando Pessoa


O Quinto Império


Triste de quem vive em casa,

Contente com o seu lar,

Sem que um sonho, no erguer de asa,

Faça até mais rubra a brasa

Da lareira a abandonar!


Triste de quem é feliz!

Vive porque a vida dura.

Nada na alma lhe diz

Mais que a lição da raíz --

Ter por vida sepultura.


Eras sobre eras se somen

No tempo que em eras vem.

Ser descontente é ser homem.

Que as forças cegas se domem

Pela visão que a alma tem!


E assim, passados os quatro

Tempos do ser que sonhou,

A terra será teatro

Do dia claro, que no atro

Da erma noite começou.


Grécia, Roma, Cristandade,

Europa -- os quatro se vão

Para onde vai toda idade.

Quem vem viver a verdade

Que morreu D. Sebastião?


Fernando Pessoa, in Mensagem

sexta-feira, julho 30, 2010

A Lojinha do Chinês





Comprei uma lanterna
na loja do chinês
fiquei admirado:
tinha instruções em Português.

Trocavam as palavras,
as letras e os sentidos
Se alguém quiser segui-las
Meus amigos, estão... perdidos!

As lojas chinesas
À nossa volta vão nascendo
Vai-se criando o mito:
Para onde vão eles morrendo?

Diz o padre da Freguesia,
O conservador e o coveiro:
"Chinês morto em Portugal?
Estou para ver o primeiro!"

Ao Sábado vou jantar
uma, outra e outra vez.
Com um sorriso a perguntar:
"Você queL comeL chinês?"

domingo, julho 18, 2010

Fado dos Contentores - Manuel Alegre



Já ninguém parte do Tejo
Para dobrar bojadores
Agora olho e só vejo
Contentores contentores.

E do Martinho Pessoa
Já não veria o vapor
Veria a sua Lisboa
Fechada num contentor.


Por mais que busques defronte
Nem ilhas praias ou flores
Não há mar nem horizonte
Só contentores contentores.

Lisboa não tem paisagem
Já não há navegadores
Nem sol nem sul nem viagem
Só contentores contentores.

Entre o passado e o futuro
Em Lisboa de mil cores
O sonho bate num muro
De contentores contentores.

Por isso vamos cantar
O fado das nossas dores
E com ele derrubar
O muro dos contentores.

Manuel Alegre
Janete Frazão

segunda-feira, junho 28, 2010

Insónia




Sabia-me a ti a noite
porque o sabor que tinha
não era o teu sabor
mas aquele que eu imaginei que fosse.

A frescura do mar na tua pele
e as gotas de sal na minha língua,
a mesma com que articulo
no vazio as palavras que te não dou.

Hoje não durmo,
fico aqui acordado contigo.

Disseste que me davas um nome...




Disseste que me davas um nome
Que inventasses para mim
Um nome que fosse meu.

Disseste que me davas um nome
E quero um nome para mim
Que nunca ninguém escreveu.

Disseste que me davas um nome
E fiquei aqui assim…

Estou à espera desse nome
Que tu me vais dar a mim.

terça-feira, junho 08, 2010

Sei de um rio...


foto recolhida aqui sem referência


Sei de um rio

que corre ligeiro no teu peito,

Que é bravio, indomado,

Insatisfeito.

Sei de um rio, fresco,

urgente,

onde sacio a minha sede,

onde sou verdade e sou gente.

Sei de um rio eterno,

sem tempo e sem bagagem,

Onde sou só marinheiro,

Onde o tudo é uma viagem!



Por mote de Ana Grichetchkine

quinta-feira, maio 20, 2010

Sísifo - Miguel Torga



Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.

E os passos que deres
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances
Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
Sempre a sonhar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga

segunda-feira, maio 10, 2010

Esses olhos curiosos





Esses olhos curiosos
Que o mundo vão decifrando
São como os mares fogosos
Tão bravios quanto brandos

São como estrelas na noite,
alumiando o caminho escuro,
São lampejos de desejos
Projectados no futuro

Tudo aquilo que eu te digo
O mais que te posso dar
As coisas que eu te ensino

São histórias de encantar
Que me deram em menino
E hoje me fazem sonhar