quarta-feira, dezembro 22, 2010
sexta-feira, dezembro 17, 2010
Fio

Corta-me,
abre em mim um rio,
deixa-me cair num fio
deixa-me fluir.
Sorve-me
o aroma do meus passos
o sal dos meus cansaços
deixa-me dormir
Ensina-me
as palavras mágicas do teu tremer
a fome que não se sacia com comer
deixa-me saber
Pinta-me
Numa foto tirada ao espelho
O rosto em tons de vermelho
deixa-me perder
Constrói
Sobre o chão nu uma paliçada
Um mundo novo no meio do nada
e deixa-me erguer!
Avisa-me
que o tempo é um eterno vazio
e que do peito nos escorre em fio
a vontade de viver!
domingo, dezembro 12, 2010
Não tinha amanhã nem madrugada

Não tinha amanhã nem madrugada
nem desejos como as gentes
que vivem silenciosos mais um dia
Não tinha amanhã nem madrugada
Não tinha mulher, amante ou namorada
Não tinha nada
Não tinha amanhã nem madrugada
mas tinha uns olhos vivos
como brasas, e via as pessoas e as casas
e observava. O tempo nunca passava.
Nunca passa, sobretudo para quem
vive deitado com a desgraça
a fome o vazio,
o mijo morno, o chão frio.
Não tinha amanhã nem madrugada
mas a cada novo dia, renascia
e nas mão trémulas segurava um caderno
de argolas com manchas de café
nódoas de fruta e migalhas de pão
e as folhas estavam amarelas
de tanta chuva miudinha cair nelas.
Era um homem, à beira da minha estrada,
e vivia ali, como quem não tinha
amanhã nem madrugada!
quinta-feira, dezembro 02, 2010
Começar de novo

Um dia disseram ao Sol que. perto do meio dia, bem no alto do Céu iria aparecer o amor de sua vida. O Sol levantou-se de madrugada e foi subindo alegre até chegar ao meio dia ao ponto mais alto do Céu. Como não aparecia ninguém e o tempo ia passando, o Sol foi perdendo o seu brilho e triste se foi embora! Mas no dia seguinte pela manhã ele acordou e de novo fez o percurso alegremente até ao novo meio dia. E continua a fazer isso todos os dias.
Se o Sol não se cansa de começar de novo todos os dias, quem somos nós para desistir?
sábado, novembro 27, 2010
Sunsets - O que ganhamos e o que perdemos?
Há um velho homem que foi levado, nessas viagens que as Câmaras Municipais fazem para ficar bem, a uma exposição de um certo fotógrafo. O tema da exposição era o pôr-do-sol. O homem passeou pela galeria admirando espantado a diversidade de tons, de paisagens, de ambientes, de luz que o fotógrafo captou. E ficou muito apreensivo. No regresso a casa perguntaram-lhe porque é que estava com aquele ar, se não tinha gostado da exposição. O homem pensou um pouco e disse:
- Adorei a exposição, mas não consigo deixar de ter pena do fotógrafo que, concentrado em tirar as fotografias, perdeu todos aqueles lindos pôr-do-sol.
- Adorei a exposição, mas não consigo deixar de ter pena do fotógrafo que, concentrado em tirar as fotografias, perdeu todos aqueles lindos pôr-do-sol.
domingo, novembro 14, 2010
Chuva miudinha
quinta-feira, outubro 07, 2010
Há palavras
Há palavras que nos deitam na cama e nos aconchegam os lençóis!
Depois há outras, que também nos deitam na cama mas não nos deixam dormir
Depois há outras, que também nos deitam na cama mas não nos deixam dormir
quarta-feira, outubro 06, 2010
Outono

Chega o Outono secando as folhas,
doirando o verde que se vai escondendo.
As castanhas assadas anunciam o frio,
as noites longas, os dias curtos.
Os casacos pesados a esconder os corpos,
a alegria das primeiras chuvas
a cair lá fora,
enquanto me imagino à lareira,
que não tenho,
com uma manta sobre os joelhos a ler
O Livro de Cesário.
Gosto do Outono e das doces recordações
que dele me advêm!
No passado os aromas que deixaram marca.
E hoje o sorriso de quem me é tão especial!
quinta-feira, setembro 30, 2010
quarta-feira, setembro 29, 2010
sábado, setembro 25, 2010
Ora vá-se lá entender!

Ao saber que era infinito
o espaço mas limitado
fiquei um pouco aflito
com o que havida sido dito
eu que estava embaralhado.
Fui rever minha lição:
O infinito não tem fim
eu que aprendi assim,
ninguém me tira a razão,
seja mestre ou sabichão!
Vá se la entender
as tristes contradições
que nos põem nas lições
e devíamos aprender
Ora, vá-se lá entender!
segunda-feira, agosto 16, 2010
O Quinto Império - Fernando Pessoa
O Quinto Império
Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raíz --
Ter por vida sepultura.
Eras sobre eras se somen
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa -- os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
Fernando Pessoa, in Mensagem
quinta-feira, agosto 12, 2010
sexta-feira, julho 30, 2010
A Lojinha do Chinês

Comprei uma lanterna
na loja do chinês
fiquei admirado:
tinha instruções em Português.
Trocavam as palavras,
as letras e os sentidos
Se alguém quiser segui-las
Meus amigos, estão... perdidos!
As lojas chinesas
À nossa volta vão nascendo
Vai-se criando o mito:
Para onde vão eles morrendo?
Diz o padre da Freguesia,
O conservador e o coveiro:
"Chinês morto em Portugal?
Estou para ver o primeiro!"
Ao Sábado vou jantar
uma, outra e outra vez.
Com um sorriso a perguntar:
"Você queL comeL chinês?"
domingo, julho 18, 2010
Fado dos Contentores - Manuel Alegre
Já ninguém parte do Tejo
Agora olho e só vejo
Contentores contentores.
E do Martinho Pessoa
Já não veria o vapor
Veria a sua Lisboa
Fechada num contentor.
Por mais que busques defronte
Nem ilhas praias ou flores
Não há mar nem horizonte
Só contentores contentores.
Lisboa não tem paisagem
Já não há navegadores
Nem sol nem sul nem viagem
Só contentores contentores.
Entre o passado e o futuro
Em Lisboa de mil cores
O sonho bate num muro
De contentores contentores.
Por isso vamos cantar
O fado das nossas dores
E com ele derrubar
O muro dos contentores.
Manuel Alegre
Janete Frazão
segunda-feira, junho 28, 2010
Insónia
Disseste que me davas um nome...
terça-feira, junho 08, 2010
Sei de um rio...

foto recolhida aqui sem referência
Sei de um rio
que corre ligeiro no teu peito,
Que é bravio, indomado,
Insatisfeito.
Sei de um rio, fresco,
urgente,
onde sacio a minha sede,
onde sou verdade e sou gente.
Sei de um rio eterno,
sem tempo e sem bagagem,
Onde sou só marinheiro,
Onde o tudo é uma viagem!
Por mote de Ana Grichetchkine
quinta-feira, maio 20, 2010
Sísifo - Miguel Torga

Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
Sempre a sonhar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde com lucidez, te reconheças.
Miguel Torga
segunda-feira, maio 10, 2010
Esses olhos curiosos

Esses olhos curiosos
Que o mundo vão decifrando
São como os mares fogosos
Tão bravios quanto brandos
São como estrelas na noite,
alumiando o caminho escuro,
São lampejos de desejos
Projectados no futuro
Tudo aquilo que eu te digo
O mais que te posso dar
As coisas que eu te ensino
São histórias de encantar
Que me deram em menino
E hoje me fazem sonhar
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