domingo, março 13, 2011

A Viagem


Mata de Peninha - Sintra

Para a viagem, segundo eu a entendo, apenas são necessários o viajante e caminho. O destino é secundário e pode até ser um factor de desânimo, pois só com o bem marcado destino se pode aferir a viagem e avaliar a seu progresso e não ser o desejado. Quem viaja sem destino marcado está sempre a tempo. Qualquer viagem começa sabendo que terá um fim, há quem só pense na meta e há quem desfrute verdadeiramente do caminho!

quinta-feira, março 10, 2011

Alguns cairam-me dos dedos


Foto de Man Ray


Alguns caíram-me dos dedos
como pétalas
outros dos lábios inquietos.
Uns forraram a planície do teu ventre
outros aventuram-se em lugares mais secretos.
Mas eram todos batidas do meu coração,
e não esqueço um só
dos que não levantaste do chão!

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Que eu não te perca

Que eu não te perca no silêncio dos nossos dias,
nas horas mortas, nos meus desejos.
Que eu não te perca sem te ver,
cego de egoísmos, cego de machismos,
cego de preconceitos.
Que eu não te perca nas esquinas
que a vida nos faz dobrar a tempos desencontrados.
Que eu não te perca para sempre
em conflitos escusados.
Que eu nunca esqueça o Sol que brilha dentro de ti,
Não quero acordar um dia e ver que te já perdi.
Há quem diga que a saudade, é o aval do valor
que um coração abandonado devota ao que já foi amor.
Mas a dor que mais fustiga, quem não quer deixar de amar
é sentir-se perder daquele a quem mais se quer dar!

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

O homem que se preparava mas não vivia




Tarde de Inverno, dia frio, cinzento. Com as golas do blusão levantadas até às orelhas, para que o frio não me as fustigasse, caminhava em direcção à Gare. Sumi-me escada abaixo, nesse formigueiro urbano em que o anonimato se celebra diariamente. O Metro é frio, mas o bafo humano aquece o ar e torna-o pesado. O paradoxal do abafo da presença dos outros que é a mesma presença que aumenta a solidão por ser feita por tanta gente. Uns dormitam, miúdos gritam de joelhos nos bancos. Há árabes de turbante, chineses, pretos e brancos. Um grupo de espanhóis conversa em alto volume indiferente a quem o rodeia. Dois finlandeses, muito acima da altura média nacional, consultam um mapa de Lisboa. A rapariga dos piercings, com o cabelo rosa preto e branco, olha com saturado desdém para o muçulmano de fato e turbante. Ao fundo da carruagem uma mulher de preto de olhos vermelhos mira o negro infinito para além da janela, olhos verdes, intensos. Deve ter sido muito bela em jovem, adivinho eu sem conseguir evitar um ataque de ternura que quase me faz ir lá beijá-la. Perdeu alguém recentemente se aquilo são duas alianças... E nisto a composição detém-se, as portas abrem e no buliçoso movimento que se cria entra um homem, novo, vestido a rigor, gabardina clara e o nariz enfiado num livro. Curioso como sou detenho-me, talvez com inveja, a observá-lo. Lê compulsivamente, nem lhe vejo os olhos mas em intervalos regulares vira as páginas, quase sem tirar o nariz das folhas. Isso é que é paixão pela leitura! Não resisto e leio o título do livro "como observar as pessoas"! É um livro de Janine Driver, não conheço mas o título não deixa grande margem para dúvidas. É, portanto, motivador para aquele leitor compulsivo o tema. É tão aliciante que até já tenho vontade de ir lê-lo. O Metro continua a sua jornada, parando de dois em dois minutos para respirar como uma baleia, sai fluxo, entra fluxo. A viagem dura bem uns vinte minutos. Eu, de olho nele, de olho na carruagem, de olho nas pessoas e em especial de olho na morena alta de leggings pretos que se sentou à minha frente, sem imposturas tolas confundindo aquele tecido justo que a deixa mais despida que nua com umas pudicas calças. A viagem termina, ele levanta os olhos do livro para confirmar onde está, volta a enterrar o nariz no livro e sai da carruagem, deve ser mesmo importante esta tarefa de leitura a que religiosamente se devota. Cruzou-se com tanta gente, viveu e esteve connosco naquela viagem em que a intimidade forçada nos aproxima sem acanhamentos, e ele sem nunca erguer os olhos do livro. Um dia saberá tudo sobre como observar pessoas, poderá é já não ter olhos!

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Boas surpresas

Duas boas surpresas numa altura em que tudo me deixa triste.
Hoje ao abrir o Google tive um ataque de doce nostalgia: O Vitinho faz 25 anos, não sei se isso me faz mais velho ou se me faz regressar à infância, mas é uma boa surpresa.


A juntar a esta, a boa surpresa que foi revisitar os temas do Vitinho pela voz de David Fonseca no CD da Leopoldina. O CD está muito bom e este tema em particular está muito bem conseguido, e ainda por cima comprá-lo é ajudar uma boa causa!

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Fio




Corta-me,
abre em mim um rio,
deixa-me cair num fio
deixa-me fluir.

Sorve-me
o aroma do meus passos
o sal dos meus cansaços
deixa-me dormir

Ensina-me
as palavras mágicas do teu tremer
a fome que não se sacia com comer
deixa-me saber

Pinta-me
Numa foto tirada ao espelho
O rosto em tons de vermelho
deixa-me perder

Constrói
Sobre o chão nu uma paliçada
Um mundo novo no meio do nada
e deixa-me erguer!

Avisa-me
que o tempo é um eterno vazio
e que do peito nos escorre em fio
a vontade de viver!

domingo, dezembro 12, 2010

Não tinha amanhã nem madrugada




Não tinha amanhã nem madrugada
nem desejos como as gentes
que vivem silenciosos mais um dia
Não tinha amanhã nem madrugada
Não tinha mulher, amante ou namorada
Não tinha nada

Não tinha amanhã nem madrugada
mas tinha uns olhos vivos
como brasas, e via as pessoas e as casas
e observava. O tempo nunca passava.
Nunca passa, sobretudo para quem
vive deitado com a desgraça
a fome o vazio,
o mijo morno, o chão frio.

Não tinha amanhã nem madrugada
mas a cada novo dia, renascia
e nas mão trémulas segurava um caderno
de argolas com manchas de café
nódoas de fruta e migalhas de pão
e as folhas estavam amarelas
de tanta chuva miudinha cair nelas.

Era um homem, à beira da minha estrada,
e vivia ali, como quem não tinha
amanhã nem madrugada!

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Começar de novo



Um dia disseram ao Sol que. perto do meio dia, bem no alto do Céu iria aparecer o amor de sua vida. O Sol levantou-se de madrugada e foi subindo alegre até chegar ao meio dia ao ponto mais alto do Céu. Como não aparecia ninguém e o tempo ia passando, o Sol foi perdendo o seu brilho e triste se foi embora! Mas no dia seguinte pela manhã ele acordou e de novo fez o percurso alegremente até ao novo meio dia. E continua a fazer isso todos os dias.
Se o Sol não se cansa de começar de novo todos os dias, quem somos nós para desistir?

sábado, novembro 27, 2010

Sunsets - O que ganhamos e o que perdemos?


Há um velho homem que foi levado, nessas viagens que as Câmaras Municipais fazem para ficar bem, a uma exposição de um certo fotógrafo. O tema da exposição era o pôr-do-sol. O homem passeou pela galeria admirando espantado a diversidade de tons, de paisagens, de ambientes, de luz que o fotógrafo captou. E ficou muito apreensivo. No regresso a casa perguntaram-lhe porque é que estava com aquele ar, se não tinha gostado da exposição. O homem pensou um pouco e disse:
- Adorei a exposição, mas não consigo deixar de ter pena do fotógrafo que, concentrado em tirar as fotografias, perdeu todos aqueles lindos pôr-do-sol.

domingo, novembro 14, 2010

Chuva miudinha



Caía a chuva miudinha
e a miudinha à chuva
sorria encolhidinha
debaixo do guarda-chuva!

E a chuva salpicava
molhava por onde podia
a moça não desarmava
e muito contente sorria!

Vendo a chuva cair
traz-me assim à lembrança
roliço rosto a sorrir
a alegria de criança!


quinta-feira, outubro 07, 2010

Há palavras

Há palavras que nos deitam na cama e nos aconchegam os lençóis!
Depois há outras, que também nos deitam na cama mas não nos deixam dormir

quarta-feira, outubro 06, 2010

Outono



Chega o Outono secando as folhas,
doirando o verde que se vai escondendo.
As castanhas assadas anunciam o frio,
as noites longas, os dias curtos.
Os casacos pesados a esconder os corpos,
a alegria das primeiras chuvas
a cair lá fora,
enquanto me imagino à lareira,
que não tenho,
com uma manta sobre os joelhos a ler
O Livro de Cesário.
Gosto do Outono e das doces recordações
que dele me advêm!
No passado os aromas que deixaram marca.
E hoje o sorriso de quem me é tão especial!

sábado, setembro 25, 2010

Ora vá-se lá entender!




Ao saber que era infinito
o espaço mas limitado
fiquei um pouco aflito
com o que havida sido dito
eu que estava embaralhado.

Fui rever minha lição:
O infinito não tem fim
eu que aprendi assim,
ninguém me tira a razão,
seja mestre ou sabichão!

Vá se la entender
as tristes contradições
que nos põem nas lições
e devíamos aprender
Ora, vá-se lá entender!

segunda-feira, agosto 16, 2010

O Quinto Império - Fernando Pessoa


O Quinto Império


Triste de quem vive em casa,

Contente com o seu lar,

Sem que um sonho, no erguer de asa,

Faça até mais rubra a brasa

Da lareira a abandonar!


Triste de quem é feliz!

Vive porque a vida dura.

Nada na alma lhe diz

Mais que a lição da raíz --

Ter por vida sepultura.


Eras sobre eras se somen

No tempo que em eras vem.

Ser descontente é ser homem.

Que as forças cegas se domem

Pela visão que a alma tem!


E assim, passados os quatro

Tempos do ser que sonhou,

A terra será teatro

Do dia claro, que no atro

Da erma noite começou.


Grécia, Roma, Cristandade,

Europa -- os quatro se vão

Para onde vai toda idade.

Quem vem viver a verdade

Que morreu D. Sebastião?


Fernando Pessoa, in Mensagem

sexta-feira, julho 30, 2010

A Lojinha do Chinês





Comprei uma lanterna
na loja do chinês
fiquei admirado:
tinha instruções em Português.

Trocavam as palavras,
as letras e os sentidos
Se alguém quiser segui-las
Meus amigos, estão... perdidos!

As lojas chinesas
À nossa volta vão nascendo
Vai-se criando o mito:
Para onde vão eles morrendo?

Diz o padre da Freguesia,
O conservador e o coveiro:
"Chinês morto em Portugal?
Estou para ver o primeiro!"

Ao Sábado vou jantar
uma, outra e outra vez.
Com um sorriso a perguntar:
"Você queL comeL chinês?"