segunda-feira, novembro 05, 2012

A Fotografia dos Zombies


Estavam à mesa sentados
dezassete eram eles
caindo aos pedaços
cabelos, ossos e peles.

Estavam à mesa sentados
com pratos de comida
O Cris não tinha um braço
A Alice tinha acabado
Ana sorria para a fotografia
Daniel estava na sopa
A Inês rasgou a roupa
A Bia quase se escondia
Quem tirou a fotografia?

A Inês olhou de lado
ficou bem o Folgado,
Há um Miguel que é Pereira
Outro que é Castanheira
Ficou uma foto "à maneira"!

Lá ao fundo ao cantinho
vemos a Rita Moutinho
A Raquel também se vê
Está ali a Daniela
E a Ana Rita está
Sentada à frente dela.
O Rodrigo de vampiro
Com uma camisola velha
E o Manuel com a boca
Aberta de orelha a orelha.

A fechar a mesa estava
o Barbeiro que ninguém queria
Se não tivesse aparecido
era melhor a fotografia!

domingo, novembro 04, 2012

A menina da flores

 


Porque não fazes umas flores?

Umas flores como?

Assim...

Não escrevas aí...
Escreve antes neste recorte.

Assim, vês... umas flores.

Deixa ver, não têm caules!

Faz tu!

Vou fazer uma menina!
As flores bonitas
precisam de meninas
para as verem!

Achas?

Vou por o meu nome no balão!  

sábado, novembro 03, 2012

Hoje ser quem sou


Pudesse hoje ser quem sou
sem ter perdido o menino que fui.
O menino que acreditava,
que sonhava,
que construía
que se deitava na relva
e ao ver as nuvens mexer
voava entre elas
o menino que quando se levantava
tinha o mundo a seus pés.
Pudesse hoje ser quem sou
sem ter esquecido o menino que fui.
Há já tanta coisa que não me lembro.
Possa eu hoje ser quem sou
acreditando que amanhã
serei ainda o menino que sempre fui.

quinta-feira, outubro 04, 2012

Uma noite de Alegria



Quando a noite caiu ele mexeu-se
A noite tem estas magia
Faz a gente correr às escuras pelos espaço
Descobrindo janelas e luas
E gente crescida sisuda e pesada


Quando ele se mexeu ele assustou-se
Quando ele se assustou ela sorriu
E as crianças acordadas e atentas
fizeram o resto da magia
e a música fluiu sem limites
e a alegria correu de mão em mão

E os bonecos do filme correram livres
e foram alegres juntos
no mesmo coração

Nada se faz sozinho,
Nada se encontra sozinho,
Felicidade não está na meta
Mas na companhia do caminho!

quarta-feira, julho 11, 2012

Lamento

Lamento que a voz me seque na garganta a mesma garganta com que podia gritar a todos para que todos ouvissem que a dor que me aflige não é só minha não nasceu dentro de mim mas moeu moeu dentro de mim um caminho para dentro transformando-se num lamento e um lamento é isso fundo morto e enterrado molhem-me a garganta com vozes acordes de mil outras gargantas toando mantras vivos reproduzidos em  mil outras gargantas cuspindo palavras de ordem e saliva aos muros e aos homens fardados que se alinham adiante de mil outras gargantas sedentas de sangue vivo de sangue de vida mil outras gargantas de vida que não se afogam no lamento mas actuam e rompendo um silêncio gritam um lamento que já não é o meu já não é o nosso que o nosso lamento morreu!  

segunda-feira, maio 21, 2012

Tempo


Não me lembro da vertigem
nem do Sol de Abril
que o tempo já torceu

Mas lembro-me da vontade
sim, isso é verdade,
e do desejo que não morreu!

Bebi nas mãos vazias
unidas junto ao meu rosto
as palavras que dizias
e o sonhos que trazias...
É saudade, mas eu gosto.

Que se dane o cientista
que o tempo definiu
como uma dimensão do espaço
num eterno evoluir
O tempo é para mim
a velha ampulheta
aferida na hora certa
com a areia a fluir.

Vertigem do tempo marcada
nesse relógio de loucos
na parede pendurado
Onde o presente se estende
como só o coração entende
lavrando à frente o passado!

quinta-feira, abril 12, 2012

Quero

Quero um copo vazio sobre a mesa
onde possa verter a lágrima cristalina
da saudade que deixaste
e bebê-la no silêncio que me sufoca
que me prende o coração.

Quero que o copo seja de vidro
lúcido e aberto, como o olhar que tinhas
nos momentos infinitos em que me perdia
e em que me encontrava para me perder de novo.
Quero que a lágrima morra de velha
e se expie num sorriso, que me traga a certeza
de um dia próximo, um dia depois de amanhã
em que a saudade se sacia
da lágrima que verti no copo!  

domingo, março 04, 2012

Um beijo secreto

O segredo dum beijo inventado
em cuidado preparado,
sonhado, imaginado,
antes de o pousar em ti.

Esse beijo tão simples e secreto,
tão fugaz e tão incerto
um oásis no deserto
eu quero beber em ti.
 
Um poema que escrevi com a minha boca
na planície do teu ventre que desejo 
o sentir de uma loucura que emerge
ao semear em ti o secreto beijo!



domingo, janeiro 08, 2012

Sentir - a nossa razão de viver!

"Quero revelar-lhes um segredo.. 
Aproximem-se...
Não lemos e escrevemos poesia porque é giro.
Lemos e escrevemos poesia 
porque fazemos parte da raça humana.
E a raça humana está impregnada de paixão.
Medicina, Direito,Gestão, Engenharia,
são actividades nobres, necessárias à vida.
Mas a poesia,a beleza, o romance, o amor,
são as coisas para que vale a pena viver." 

In Clube dos Poetas Mortos 
(Peter Weir, 1989) 


Se comer e respirar são necessários à vida, 
a paixão, o amor e a poesia são a nossa razão de viver.

Exprimir o que sentimos é que faz de nós humanos.
Sentir faz de nós humanos. 
Quem rejeita, esquece ou castra a poesia
a criatividade, a liberdade, o amor...
comete um crime contra a humanidade.

Que me interessa que os meu filhos
saibam de cor a tabuada aos 7 anos
que resolvam radicais pelo algoritmo
que demonstrem teoremas de Cauchy e Bolzano 
resolvam integrais e logaritmos 
que especulem geometrias no espaço não-euclidiano
e falem de números que ninguém viu... 
Se passarem ao lado duma vida 
que sem sentir nunca existiu? 



quarta-feira, janeiro 04, 2012

Momento final

Cansado, sem forças para gritar
deixou tombar o corpo no asfalto frio 
naquela tarde de Janeiro
deixou tombar o corpo muito tempo depois
de ter já deixado tombar a alma. 

Olhou com os olhos vagos o céu imenso
num cinzento intenso monótono e vazio
deixou escorrer as lágrimas como um rio
de um lado e do outro do rosto macilento 

deixou-se morrer, porque até as vidas sem sentido, 
num despedir desapegado,
precisam de um momento final.

terça-feira, novembro 22, 2011

Abaixo o Mistério da Poesia - António Gedeão





















Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
E um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
Para ver quem é,
Enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
E correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas
Despertas;
Enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
Órfãos de pais e mães,
Andarem acossados pelas ruas
Como matilhas de cães;
Enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
Com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
Num silêncio de espanto
Rasgado pelo grito da sereia estridente;
Enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
Cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
Amassando na mesma lama de extermínio
Os ossos dos homens e as traves das suas casas;
Enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
Enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA

quarta-feira, novembro 16, 2011

O rouxinol e o poeta.




Certa noite, estando o poeta particularmente triste, ouviu cantar junto da sua janela o rouxinol que vivia numa árvore que ficava próxima. Emocionado e agradecido com tal gesto perguntou à ave:


- Com é possível que cantes à minha janela nas noites em que estou mais triste?


- Eu canto à tua janela todas as noites - respondeu o pássaro.

quarta-feira, outubro 26, 2011

O Romance do Farol



Não passa desapercebido
A imagem do farol
é como um dedo estendido
Que a terra aponta ao sol

Nesta língua de areia
Entre o céu e o mar
Vislumbro a brincadeira
De dois seres a namorar

Brilha a luz na noite incerta
Vigilante olhando o mar
O farol o céu penetra
Intensa lição de amar

Uma brisa sibilante
agitando a onda em espuma
Tudo pára num instante
À espera que o amor se assuma!
Posted by Picasa

Na linha da costa

Na areia da praia
Onde nada nascia

Plantámos sorrisos
Colhemos alegria

Na areia da praia
Floriram esperanças
O cinzento do crescido
O colorido das crianças!

 
Na linha da costa

terça-feira, outubro 11, 2011

Espalhei os meus sonhos aos vossos pés.



HAD I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.


W.B. Yeats (1865–1939)
"He Wishes For the Cloths of Heaven"
from the Collected Works of W.B. Yeats






É belíssimo este poema de Yeats e deixou-me a pensar. Porque eu também, pobre que sou, só tenho sonhos e espalhei-os aos vossos pés. Quando os pisarem façam-no com cuidado pois são os meus sonhos que pisam. 
 
 

domingo, outubro 09, 2011

Até ao fim














Até ao fim

Quantas vezes em meus braços
Te deixaste adormecer
Tantas vezes em silêncio nos amámos
Até o dia amanhecer

Entre gestos de ternura
Vimos o dia nascer
Encontrámos mais do que procurámos
Fomos além do prazer

                Eu vivo a vida pela alegria
                De te ter ao pé de mim.
                Serei capaz de ficar contigo
                E de te amar até ao fim

Vivo para ti cada segundo
Cada bater do coração
Como um tambor
Um tambor que dá à vida
O ritmo de uma canção. 

Motivação Humana