Fui ver a chuva molhava a chão saltitando no asfalto correndo nos interstícios das pedras da calçada.
Fui ver a chuva brincando à noite sob a luz branca dos candeeiros e fazendo riachos nas veredas da estrada.
E a chuva, gota a gota, trouxe-me à memória esse mar que és tu. Esse mar de desejo turvado e impreciso onde respinga alegremente a lágrima do teu sorriso!
Adoroquando os teus olhosfitam os teus lábios vibram os teus dedos tocam
Adoro o cheiro da tua pele cheiro do teu mel cheiro do teu sorriso pleno sentir que me turva o juízo e me faz dançar ao vento nu, adoro a música que és tu!
Adoro o cúmplice do teu abraço que ontem ficou por dar aninhar-me no teu regaço e no teu sopro ouvir o mar.
Adoro a roupa que tu vestes queria tirar-ta para mim ser pauta, ser teu maestro, nesse concerto sem fim.
Passado todo o presente é pelo futuro por que luto. Silenciosa melodia que adoro quando escuto!
Estavam à mesa sentados
dezassete eram eles
caindo aos pedaços
cabelos, ossos e peles.
Estavam à mesa sentados
com pratos de comida
O Cris não tinha um braço
A Alice tinha acabado
Ana sorria para a fotografia
Daniel estava na sopa
A Inês rasgou a roupa
A Bia quase se escondia
Quem tirou a fotografia?
A Inês olhou de lado
ficou bem o Folgado,
Há um Miguel que é Pereira
Outro que é Castanheira
Ficou uma foto "à maneira"!
Lá ao fundo ao cantinho
vemos a Rita Moutinho
A Raquel também se vê
Está ali a Daniela
E a Ana Rita está
Sentada à frente dela.
O Rodrigo de vampiro
Com uma camisola velha
E o Manuel com a boca
Aberta de orelha a orelha.
A fechar a mesa estava
o Barbeiro que ninguém queria
Se não tivesse aparecido
era melhor a fotografia!
Pudesse hoje ser quem sou
sem ter perdido o menino que fui.
O menino que acreditava,
que sonhava,
que construía
que se deitava na relva
e ao ver as nuvens mexer
voava entre elas
o menino que quando se levantava
tinha o mundo a seus pés.
Pudesse hoje ser quem sou
sem ter esquecido o menino que fui.
Há já tanta coisa que não me lembro.
Possa eu hoje ser quem sou
acreditando que amanhã
serei ainda o menino que sempre fui.
Quando a noite caiu ele mexeu-se A noite tem estas magia Faz a gente correr às escuras pelos espaço Descobrindo janelas e luas E gente crescida sisuda e pesada
Quando ele se mexeu ele assustou-se Quando ele se assustou ela sorriu E as crianças acordadas e atentas fizeram o resto da magia e a música fluiu sem limites e a alegria correu de mão em mão
E os bonecos do filme correram livres e foram alegres juntos no mesmo coração
Nada se faz sozinho, Nada se encontra sozinho, Felicidade não está na meta Mas na companhia do caminho!
Lamento que a voz me seque na garganta a mesma garganta com que podia gritar a todos para que todos ouvissem que a dor que me aflige não é só minha não nasceu dentro de mim mas moeu moeu dentro de mim um caminho para dentro transformando-se num lamento e um lamento é isso fundo morto e enterrado molhem-me a garganta com vozes acordes de mil outras gargantas toando mantras vivos reproduzidos em mil outras gargantas cuspindo palavras de ordem e saliva aos muros e aos homens fardados que se alinham adiante de mil outras gargantas sedentas de sangue vivo de sangue de vida mil outras gargantas de vida que não se afogam no lamento mas actuam e rompendo um silêncio gritam um lamento que já não é o meu já não é o nosso que o nosso lamento morreu!
Não me lembro da vertigem
nem do Sol de Abril
que o tempo já torceu
Mas lembro-me da vontade
sim, isso é verdade,
e do desejo que não morreu!
Bebi nas mãos vazias
unidas junto ao meu rosto
as palavras que dizias
e o sonhos que trazias...
É saudade, mas eu gosto.
Que se dane o cientista
que o tempo definiu
como uma dimensão do espaço
num eterno evoluir
O tempo é para mim
a velha ampulheta
aferida na hora certa
com a areia a fluir.
Vertigem do tempo marcada
nesse relógio de loucos
na parede pendurado
Onde o presente se estende
como só o coração entende
lavrando à frente o passado!
Quero um copo vazio sobre a mesa
onde possa verter a lágrima cristalina
da saudade que deixaste
e bebê-la no silêncio que me sufoca
que me prende o coração.
Quero que o copo seja de vidro
lúcido e aberto, como o olhar que tinhas
nos momentos infinitos em que me perdia
e em que me encontrava para me perder de novo.
Quero que a lágrima morra de velha
e se expie num sorriso, que me traga a certeza
de um dia próximo, um dia depois de amanhã
em que a saudade se sacia
da lágrima que verti no copo!
Cansado, sem forças para gritar deixou tombar o corpo no asfalto frio naquela tarde de Janeiro deixou tombar o corpo muito tempo depois de ter já deixado tombar a alma.
Olhou com os olhos vagos o céu imenso num cinzento intenso monótono e vazio deixou escorrer as lágrimas como um rio de um lado e do outro do rosto macilento
deixou-se morrer, porque até as vidas sem sentido, num despedir desapegado, precisam de um momento final.
Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
E um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
Para ver quem é,
Enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
E correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas
Despertas;
Enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
Órfãos de pais e mães,
Andarem acossados pelas ruas
Como matilhas de cães;
Enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
Com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
Num silêncio de espanto
Rasgado pelo grito da sereia estridente;
Enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
Cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
Amassando na mesma lama de extermínio
Os ossos dos homens e as traves das suas casas;
Enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
Enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:
Certa noite, estando o poeta particularmente triste, ouviu cantar junto da sua janela o rouxinol que vivia numa árvore que ficava próxima. Emocionado e agradecido com tal gesto perguntou à ave:
- Com é possível que cantes à minha janela nas noites em que estou mais triste?
- Eu canto à tua janela todas as noites - respondeu o pássaro.
HAD I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.
É belíssimo este poema de Yeats e deixou-me a pensar. Porque eu também, pobre que sou, só tenho sonhos e espalhei-os aos vossos pés. Quando os pisarem façam-no com cuidado pois são os meus sonhos que pisam.