sábado, março 08, 2014

Dia da Mulher - 2014

O Dia Internacional da Mulher recorda a luta das mulheres por uma vida digna, socialmente reconhecida e com os seus direitos fundamentais devidamente respeitados. Recorda o dia em que, no ano de 1857, cento e trinta operárias morreram queimadas numa fábrica durante um protesto por melhores condições de trabalho. Era exigido às mulheres um horário diário de 16 horas e era-lhes pago cerca de um terço do que era pago aos homens pelo mesmo trabalho. Elas pediam a redução para 10 horas diárias. Para que esse dia e essa luta não sejam esquecidos continuamos a celebrar nesta data a condição feminina e os direitos conquistados pelas mulheres. Hoje, mais que nunca, é importante que não nos esqueçamos de como era e do que foi conquistado para que o passado não nos seja de novo imposto como querem os senhores das grandes finanças.

Recordo o belo poema "Mulher" de André Carvalho:

Mulher

Mulher é um substantivo
que resiste às tempestades
que é feminino e altivo
e tão dado a liberdades
como ao amor mais cativo;
É uma linha num esboço
que curva no pescoço,
que se debruça nos seios
a mirar olhos alheios
e depois desenha o torso
perdido em devaneios
e novos rotundos enleios.
Mulher é água no deserto
que deixa os rapazes cheios
de sedes e de anseios;
é um lugar longe mas perto
onde uma cabeça pode
descansar sem receios.
Mulher é sextina, é ode
é quadra popular, é soneto
é uma canção tocada
por um jovem no coreto.
Mulher rainha por um dia
por toda a vida coroada:
quem a vê e quem a via
é cantada, celebrada
é pouco menos que nada
e um pouco mais que tudo,
é um vislumbre desnudo
num robe de seda pura.
Mulher é o querer, é o vício
é a resposta, é a cura,
é um momento propício
à beira dum precipício.
Mulher é uma aventura
uma guerreira e uma mãe
é um gesto de ternura,
é o porquê e o quem
e ao cair a noite escura
é uma mulher também.

                         André Carvalho



domingo, fevereiro 02, 2014

Um conto sobre sacrifício individual por amor aos outros.



Conta uma antiga lenda Maori, da Nova Zelândia, que certo dia o pai de todas as árvores “Tane ma huta” começou a ficar preocupado com as suas filhas, pois estavam a definhar e morrer, pois os vermes da terra atacavam-lhe as raízes.

Preocupado, foi falar com o seu irmão “Tane hoka hoka” o pai de todas as aves e explicou que se não se resolvesse o problema em breve as árvores morreriam todas, e no solo despido as aves do céu com as suas coloridas asas e o seu espírito alegre e livre, também não teriam condições de sobreviver. Era, portanto preciso que alguma ave ajudasse a resolver o problema.

O pai de todas as aves falou. Explicou a situação e perguntou:
- Pássaro Tui, aceitas a tarefa de comer os vermes da terra, abdicando do céu para que todas as árvores e todos pássaros possam sobrevier?

O Pássaro Tui olhou para o fundo da floresta, onde os raios de sol mal penetravam e viu o chão húmido e frio onde teria de viver para sempre, e tremeu. Não respondeu e foi-se esconder!

Perguntou então à Garça Pukeko :
- Aceitas tu ir viver para o chão da floresta?
- Não quero molhar os pés! – Respondeu a garça.

Virou-se então para, Pipi whar auroa, o Cuco, mas estes respondeu:

- Agora não posso, vou fazer um ninho para mim e para a minha família na árvore mais bonita da floresta.

O Pai de todas as aves, ficou triste, pois sabia que em breve não sobraria nenhuma árvore onde os seus filhos pudessem fazer ninhos.

O Pássaro Kiwi, disse:

- Eu vou!

O Pai de todos os pássaros disse-lhe:
- Kiwi, tu o pássaro mais alegre, com as penas mais bonitas e o voo mais encantador? Percebes que se fores vais perder as asas, ganhar pernas toscas e robustas para revolver os troncos mortos. Perder esse bico maravilhoso que te faz cantar tão bem e em troca ficar com um bico forte e grosso para perfurar as cascas das árvores para ir buscar as larvas e os vermes, e no escuro da floresta perderás todas as tuas cores, e nunca mais voarás ou verás mais do sol que alguns raios que atravessem os ramos das árvores?

O Kiwi olhou em volta, despediu-se do céu aberto, da brisa que vinha do mar, e da luz do sol e disse:

- Eu vou.
O pai de todos os pássaros ficou muito feliz por resolver o problema, mas triste por perder a ave mais bonita dos céus. E num acto de raiva castigou o Tui que fugiu, e desde aí o Tui vive escondido da vista de todos. Castigou a garça, que não queria molhar os pés a alimentar-se nos pântanos. E castigou o cuco, que ia fazer o ninho, de modo a que nunca mais nenhum cuco fez ninho, e ainda hoje andam a por os ovos nos ninhos dos outros.

E para que o gesto do kiwi nunca mais fosse esquecido, contou esta história aos homens para que a contassem aos filhos e netos. É por isso que ainda hoje na nova Zelândia o Kiwi é amado por todos, e o seu gesto de abnegação por amor a todos ainda é recordado aos mais novos!

quarta-feira, janeiro 15, 2014

Era uma vez.. o mar.

Conta-se que, há muito tempo, um homem que tinha muitas piscinas nunca tinha visto o mar. Um dia passeou o homem até uma praia e fascinou-se com a imensidão do oceano. Mergulhou nas suas águas, sentiu na pele o sal, embalou-se nas suas ondas, divertiu-se com os seus peixes. Gostou tanto do que experimentou que decidiu que havia de o ter para si, fez uma grande piscina onde colocou a água do mar, mas sem peixes, sem algas e sem sal.


quinta-feira, outubro 03, 2013

Quinta-feira


Hoje é quinta-feira
Mais uma das quintas-feiras
Que deviam ficar por amanhecer

Cheira-me a despedida
Cheira-me a coragem
A tempo frio
A terra molhada

E há uma mãe que chora
Uma mulher que chora
E chora sozinha

Porque mulher é chão
Porque mãe é certeza,
Firmeza e segurança

E, acolhendo ao peito os dois filhos
Num abraço a três


São quatro a desejar
Que esta quinta-feira,
Simplesmente,
Não tivesse amanhecido!





domingo, setembro 29, 2013

Dói-me a chuva

A cada gota
condensada e cristalina
que tomba na terra fria
dói-me

Como se nu
sem ti
morresse a cada pinga

Memória
Eterna
Esperança que nada espera.

A chuva não me cai na pele
mas dói-me cada gota
que penetra a terra.

sábado, março 23, 2013

Lama da saudade



Na terra fêmea de vida
na água que molha e perfuma
na copa da alta pinheira
 na sombra da caruma

Nas mãos se faz escultura
nas gargantas e ravinas
nas mais sentidas caricias
nas costas envoltas em brumas

No silêncio por moldar
no cheiro a solo molhado
no tempo de desejar
no tempo chora passado

És mulher mãe menina
És lama de vida pura
És no silêncio a mina
És todo o mel da ternura

E eu mirando de longe
E eu a ver-te fugir
E eu só no horizonte

E a saudade que estou a sentir!

segunda-feira, março 18, 2013

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Que...

Não há mais longe que o que fica entre a vontade de fazer e o não poder! Não há maior silêncio que a indiferença perante o grito de quem sofre! Não há maior roubo que o da liberdade! Não há maior desperdício que amar sozinho! Não há maior dor que desistir de ser feliz!

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Semeámos hoje um poeta



Semeámos hoje um poeta
Podíamos tê-lo lançado ao vento
Para que as palavras voassem
E enchessem os cantos dos pássaros
Daquelas poesias ao desafio
Que soltava fluente na Serra Algarvia

Semeámos  hoje um poeta
Semeámo-lo na terra
A terra que lhe esculpiu as mãos
A terra que lhe deu de comer
A terra que conquistou e amou
Semeámo-lo hoje na terra
Porque os poetas não se enterram
Semeiam-se
Para que de novo brotem, cresçam
Para que as suas palavras
Voltem a dar sempre novo fruto.

Semeámos hoje um poeta
O adeus não lhe dizemos
Calamos no peito e sorrimos
Porque prevalece a memória
Da poesia, do homem e da história
Que fecha um capítulo
Mas fica ainda muito para contar!


Alexandre de Oliveira
 




sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Sabes, Lua?




Sabes, Lua?
Há quem te veja uma rocha fria
No céu estrelado.
O pálido reflexo do astro rei.
Planeta anão subjugado
Preso em gravidade de tal lei.

Há quem te veja como
A mãe dos bichos
A quem à noite choram os animais
Lacrimejantes olhares em ti fixos
Ignorando que tu, Lua, és muito mais.

Tens no ventre uma brasa imensa
O branco não é mais que liquefeito
néctar de amor que cai no peito
Do amante que soltou vontade intensa
Corpo Lua que ama e não pensa.

Como és fiel amante minha
Todas as noites visitas o meu céu,
Egoísta sou se pensar que tinha
Todo o teu amor devoto ao meu.

Não és de ninguém, formosa Lua
És mulher amante em fogo cru
Sem pudor no céu passeias nua
Visitando em sonhos meu corpo nu.


Tal como o peito de mulher
Frio ao olhar, ao toque quente
Quem um dia ousar te tocar
Nos dedos sentirá como és ardente.
E os poetas que sabem como és
Desejam descobrir esse calor
Colocam humildemente a teus pés
As mais belas palavras de amor!



domingo, janeiro 27, 2013

Let me fly to the moon!



Tenho à janela a luz da Lua
Intensa, branca, pura

Tenho à janela a luz da Lua
feminina, cheia e bela

E, se não me seguram, 
vou abrir os braços
e voar ao encontro dela!

 

 

quarta-feira, novembro 28, 2012

Fui ver a chuva

Fui ver a chuva
molhava a chão
saltitando no asfalto
correndo nos interstícios
das pedras da calçada. 

Fui ver a chuva 
brincando à noite
sob a luz branca dos candeeiros
e fazendo riachos 
nas veredas da estrada. 

E a chuva, gota a gota,
trouxe-me à memória
esse mar que és tu. 
Esse mar de desejo
turvado e impreciso
onde respinga alegremente 
a lágrima do teu sorriso! 



domingo, novembro 11, 2012

Melodia

Adoro quando os teus olhos fitam
os teus lábios vibram
os teus dedos tocam

Adoro o cheiro da tua pele
cheiro do teu mel
cheiro do teu sorriso
pleno sentir que me turva o juízo
e me faz dançar ao vento nu,
adoro a música que és tu!

Adoro o cúmplice do teu abraço
que ontem ficou por dar
aninhar-me no teu regaço
e no teu sopro ouvir o mar. 

Adoro a roupa que tu vestes
queria tirar-ta para mim
ser pauta, ser teu maestro, 
nesse concerto sem fim.  

Passado todo o presente
é pelo futuro por que luto.
Silenciosa melodia
que adoro quando escuto! 



 
        
 

terça-feira, novembro 06, 2012

A Onda


Todos a sabemos forte
Decidida
Devastadora

Todos a sabemos livre
Persistente
Destruidora

Mas a sua vontade não é sua
é somente o resultado
das muitas pequenas vontades
das gotas que a constituem.




segunda-feira, novembro 05, 2012

A Fotografia dos Zombies


Estavam à mesa sentados
dezassete eram eles
caindo aos pedaços
cabelos, ossos e peles.

Estavam à mesa sentados
com pratos de comida
O Cris não tinha um braço
A Alice tinha acabado
Ana sorria para a fotografia
Daniel estava na sopa
A Inês rasgou a roupa
A Bia quase se escondia
Quem tirou a fotografia?

A Inês olhou de lado
ficou bem o Folgado,
Há um Miguel que é Pereira
Outro que é Castanheira
Ficou uma foto "à maneira"!

Lá ao fundo ao cantinho
vemos a Rita Moutinho
A Raquel também se vê
Está ali a Daniela
E a Ana Rita está
Sentada à frente dela.
O Rodrigo de vampiro
Com uma camisola velha
E o Manuel com a boca
Aberta de orelha a orelha.

A fechar a mesa estava
o Barbeiro que ninguém queria
Se não tivesse aparecido
era melhor a fotografia!

domingo, novembro 04, 2012

A menina da flores

 


Porque não fazes umas flores?

Umas flores como?

Assim...

Não escrevas aí...
Escreve antes neste recorte.

Assim, vês... umas flores.

Deixa ver, não têm caules!

Faz tu!

Vou fazer uma menina!
As flores bonitas
precisam de meninas
para as verem!

Achas?

Vou por o meu nome no balão!  

sábado, novembro 03, 2012

Hoje ser quem sou


Pudesse hoje ser quem sou
sem ter perdido o menino que fui.
O menino que acreditava,
que sonhava,
que construía
que se deitava na relva
e ao ver as nuvens mexer
voava entre elas
o menino que quando se levantava
tinha o mundo a seus pés.
Pudesse hoje ser quem sou
sem ter esquecido o menino que fui.
Há já tanta coisa que não me lembro.
Possa eu hoje ser quem sou
acreditando que amanhã
serei ainda o menino que sempre fui.

quinta-feira, outubro 04, 2012

Uma noite de Alegria



Quando a noite caiu ele mexeu-se
A noite tem estas magia
Faz a gente correr às escuras pelos espaço
Descobrindo janelas e luas
E gente crescida sisuda e pesada


Quando ele se mexeu ele assustou-se
Quando ele se assustou ela sorriu
E as crianças acordadas e atentas
fizeram o resto da magia
e a música fluiu sem limites
e a alegria correu de mão em mão

E os bonecos do filme correram livres
e foram alegres juntos
no mesmo coração

Nada se faz sozinho,
Nada se encontra sozinho,
Felicidade não está na meta
Mas na companhia do caminho!

quarta-feira, julho 11, 2012

Lamento

Lamento que a voz me seque na garganta a mesma garganta com que podia gritar a todos para que todos ouvissem que a dor que me aflige não é só minha não nasceu dentro de mim mas moeu moeu dentro de mim um caminho para dentro transformando-se num lamento e um lamento é isso fundo morto e enterrado molhem-me a garganta com vozes acordes de mil outras gargantas toando mantras vivos reproduzidos em  mil outras gargantas cuspindo palavras de ordem e saliva aos muros e aos homens fardados que se alinham adiante de mil outras gargantas sedentas de sangue vivo de sangue de vida mil outras gargantas de vida que não se afogam no lamento mas actuam e rompendo um silêncio gritam um lamento que já não é o meu já não é o nosso que o nosso lamento morreu!  

segunda-feira, maio 21, 2012

Tempo


Não me lembro da vertigem
nem do Sol de Abril
que o tempo já torceu

Mas lembro-me da vontade
sim, isso é verdade,
e do desejo que não morreu!

Bebi nas mãos vazias
unidas junto ao meu rosto
as palavras que dizias
e o sonhos que trazias...
É saudade, mas eu gosto.

Que se dane o cientista
que o tempo definiu
como uma dimensão do espaço
num eterno evoluir
O tempo é para mim
a velha ampulheta
aferida na hora certa
com a areia a fluir.

Vertigem do tempo marcada
nesse relógio de loucos
na parede pendurado
Onde o presente se estende
como só o coração entende
lavrando à frente o passado!