segunda-feira, janeiro 07, 2008
Balzaquiana
na tua carne que me sacia,
no teu gesto que me guia,
ao mar da fecundidade.
Entre os teus seios leite e mel,
bebo-os de um só trago,
vem depois o gosto amargo,
da minha virilidade.
Na tua boca o beijo quente,
primeiro eu, depois nós
num momento estamos sós
noutra realidade.
Dormem os corpos cansados
do desejo satisfeito
colados peito no peito
entregues em felicidade.
domingo, janeiro 06, 2008
As Palavras Interditas (Eugénio de Andrade)

AS PALAVRAS INTERDITAS
Os navios existem e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.
Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.
Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.
As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas minhas curvas claras.
Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
e estas mãos noturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.
E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
Eugénio de Andrade
in «As palavras Interditas» (1951)
Linha da Costa
Eram ventos e chuvasa fustigar o navio
no convés solitário
o marinheiro com frio
ergue os olhos ao céu
num grito silencioso
pede um porto-abrigo
onde achar algum repouso
E no meio do desespero
na noite mal iluminada
irregular linha da costa
por criança desenhada
Buscando acolhimeto
ruma à praia que vê
bate a barcaça na rocha
morreu, não soube porquê.
quinta-feira, janeiro 03, 2008
mil palavras em silêncio
sábado, dezembro 22, 2007
quarta-feira, dezembro 19, 2007
Puzzled
Atiradas sobre a mesa
em cartão recortadas
as peças do teu puzzle
muito baralhadas
Comecei por enquadrar
para ver quanto medias
era preciso paciência
ia demorar uns dias
Mas tu ajudaste muito
construíste o que sabias
agora faltavam uns buracos
que tu não preenchias
Mas a peça que faltava
para terminar o teu retrato
estava algures perdida
caída no chão do quarto
Tu, como toda a gente,
és um puzzle completo
viver é aprender a pôr
as peças no sítio certo.
quinta-feira, dezembro 13, 2007
Nunca mais amarei quem não possa viver sempre - Sophia de Mello Breyner
LAMENTAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL
“A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.
Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser.
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência.
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.”
(Sophia de Mello Breyner)
domingo, dezembro 09, 2007
Eu não
sexta-feira, dezembro 07, 2007
O teu abraço
domingo, dezembro 02, 2007
Umas vezes me espanto, outras me envergonho!
Um soneto de amor (Sá de Miranda)
Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si
e vou tresvaliando como em sonho.
Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m´espanto às vezes, outras m´avergonho.
Que, tornando ante vós, senhora, tal,
quando m´era mister tant´outr´ajuda,
de que me valerei, se alma não val?
Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.
Li uma citação deste soneto no Abrupto e de imediato percebi o que sentia. Decorreu este fim de semana a entrega de prémios do Festival de Microfilmes de Lisboa.
É efectivamente espantoso que se tenha a coragem de levar para a frente uma iniciativa destas, que proporcionou que mais de 500 obras viessem a público. Uma iniciativa rara destas em terras portuguesas é de espantar qualquer um.
Mas envergonho-me de ter incentivado tanta gente a participar, e ver que no final o filme escolhido para representar o espírito deste festival tenha sido vergonhoso. A ver: não é original, não tem qualquer relação com o nosso país, é um filme narrado em francês legendado em inglês. Diz ter sido feito com um telemóvel, mas a legendagem levanta grandes interrogações quanto a isso. Não tem qualquer mensagem e num festival que excluía filmes com os conteúdos pornográficos ou violentos, a temática da agressão gratuita do Zidane ao Matterazi é a narrativa deste microfilme - uma vergonha!
Espanto ainda senti quando não quis acreditar que fosse verdade o que estava a ver, mas envergonhei-me de não ter percebido que um festival organizado pelas "Produções Fictícias" não era para ser levado a sério!
Esta situação afronta o coração e deixa a língua de Camões, mais uma vez muda.
Moral da história: se num festival chamado Microfilmes Lisboa o trabalho nacional não é reconhecido, onde será?
quarta-feira, novembro 28, 2007
Vazio
que nada pode preencher.
Um arrepio de frio
que corta até doer.
Não tem nome
nem memória
não tem passado
nem história.
Não tem luz
não tem futuro
é buraco e é muro.
É pedra tumular
é uma vida a passar
é a lembrança esquecida
é uma perda de vida.
quarta-feira, novembro 21, 2007
Memória

retirada do site http://casaldaribeira.com.sapo.pt/
Eis que dou com o nome da aldeia do meu pai nas noticias. Parece que uma barragem a ser construida no Programa Nacional de Barragens com Elevado Potêncial Hidroeléctrico vai beneficiar aquela zona. O que as lágrimas dos aldeões não conseguiram fazer faz a barragem. Encontrei um site em que se pode espreitar para aquele vale, e um texto sentido de quem vê as suas origens e as suas lembranças a serem afogadas a bem do progresso. Não há gravuras que salvem esta aldeia, é mais uma a juntar à Aldeia da Luz e ao Vilarinho das Furnas e a tantas outras, resta-nos a esperança de que a memória não morra. Mas morre a esperança de um dia eu me sentar na mesma pedra e dizer ao meu neto onde ficam as Ursas e o Sete Estrela.
quarta-feira, novembro 07, 2007
Mais uma vez... até quando?
Com uma arma na mão
é heroi, rei, campeão
é cowboy e justiceiro
é Lucky Luke certeiro
é Batman e é Popeye
e é mais homem que o seu pai
É uma juventude inteira
a fazer uma brincadeira
de um filme sem fantasia
que assusta, angustia
É a pura da loucura
é a puta da loucura
são os sinais do tempo
as cabeças cheias de vento
são morangos com açucar
é trocar tudo por dinheiro
o virtual por verdadeiro
é julgar que faz "reset"
ou rebobina a k7
mas a vida é uma só
e quem morto volta a pó
neste tempo é chorado
e apenas pela familia
é volta e meia lembrado
A memória colectiva
é um monstro amnésico
esquece tudo
e o espaço cénico
de uma escola
é o reino da pistola
Os professores são para abater
a malta tem de morrer
para mostrar que é sublime
que não se deixa vencer
pela merda que o oprime
entra pelo portão
com a pistola na mão
já não há nada que o perturbe
até anunciou no youtube
tudo o que ía fazer
E pronto:
é disparar e morrer!
sexta-feira, novembro 02, 2007
quarta-feira, outubro 31, 2007
Tic tac tic tac tic tac "BOMBA!" ta-ra-ra-ra-rã
metro metro
corre pára
apeadeiro
ligação ao areeiro
campo grande
ameixoeira
uma linha toda inteira
oriente
a gente sente
lê revista
carteirista
Entra o mouro
mouraria
e no saco o que trazia
tatuagem
paz e pomba
ramo de oliveira
e bomba!
segunda-feira, outubro 29, 2007
Noite Estrelada II
Há mais estrelas no céu do mundo de onde venho
e quando te olho nos olhos ainda estranho
o saber que somos da mesma matéria
no corpo preso a alma etérea.
E ninguém nos entende
fascinam-se de facto,
se eles são cão eu sou gato.
E o gato espera o momento certo
e o gato dorme de olho aberto
e faz da noite sua companheira
e nela se liberta à sua maneira
de felino atrevido
de maõs dadas com o perigo.
Pintei um quadro para ti na minha cabeça
pintei um céu azul onde voava uma alma nua
essa alma que é minha nessa noite que é tua
e visitei os teus sonhos
e decobri os teus segredos
e aprendi que queria ser mulher.
E entrego-te as palavras como um presente
e entrego-te o código secreto do que o meu coração sente
e tu sabes lê-lo
E lês baixinho ao meu ouvido.
E de toda a dança de corpos que nos envolveu
no ritmo estonteante que nos embriagou
foi apenas a verdade do segredo
que para sempre nos juntou.
E há quadros de Van Gogh nas paredes
que ele me deu no mundo de onde eu vim
e sei que o quadro daquela noite,
foi o Vicente que o pintou por mim.
quarta-feira, outubro 17, 2007
kiss me
porque eu preciso
kiss me
porque eu não tenho juizo
kiss me
porque eu te desejo
kiss me
porque eu quero um beijo






