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sexta-feira, fevereiro 15, 2008




You Are a Comma



You are open minded and extremely optimistic.

You enjoy almost all facets of life. You can find the good in almost anything.



You keep yourself busy with tons of friends, activities, and interests.

You find it hard to turn down an opportunity, even if you are pressed for time.



Your friends find you fascinating, charming, and easy to talk to.

(But with so many competing interests, you friends do feel like you hardly have time for them.)



You excel in: Inspiring people



You get along best with: The Question Mark

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Aos Moinhos de Vento de Odivelas


Scott Gustafson

Os moinhos que Quixote venceu
levantam-se de novo à minha frente.
Não sei se é devaneio ou sonho meu,
sei que ninguém os vê e há tanta gente.

Memórias de um passado cavaleiro,
poeta, sonhador e desgraçado.
Acompanhado pelo seu escudeiro,
um homem rude e simples mas honrado.

E eu, que não tenho lança nem escudo,
nem quixotes, nem elmos, nem viseiras,
tenho igual loucura, diferente em tudo.

Enfreto essas bestas arruaceiras,
de peito aberto e um forte grito mudo,
que as minhas ilusões são verdadeiras.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

A morte saiu à rua

A Morte saiu à Rua - Zeca Afonso

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação.


Foto de William Klein(NY, 1954)


A morte saiu à rua uma noite passada
E dois corpos jovens tombaram
no meio de uma estrada.

Foi o ódio que os matou,
não a bala na cabeça,
antes de morrer já estavam mortos.
E quem os matou fomos nós.
Podem ter a certeza.

Osvaldo, Francisco e os sem nome,
nossos filhos ou do Patolas?
Em vez de serem míudos,
vendem droga, usam facas e matam com pistolas.

E é quase natural haver contas pra ajustar.
E o povo vai levando, com a brandura habitual,
é que a vida vale menos só por ser um marginal.

Deviam matar-se todos, grita o velho reformado
até ver que é o seu neto que jaz na estrada deitado.

É tudo um bando de pretos, que não querem trabalhar,
mas era um miudo branco que a policia foi buscar.

Era filho, era amigo, e escreveu o seu destino,
matou um do gangue rival, e ficou um assassino.

E na fuga em bando de putos, o novo heroi perfeito,
estica o braço a um amigo e acerta-lhe no peito.

Assaltam miudos do liceu, levam ténis telemoveis,
e coisas estranhas até.
Acabou com duas mortes, mas começou num boné!

E fechamos nós os olhos, enterramos a cabeça na areia
fechamos a boca, as janelas, as portas, pra não levar uma tareia.

Diz o poeta inglês: que a Sintra não damos valor,
pois é bem perto de Sintra, que se vive um tal horror.

Este lugar já não tem nome,
Já não é o meu país,
é uma replica pobre daquilo que eu nunca quis.

domingo, janeiro 20, 2008

Paradoxos



Paradoxos
(em memória de um jardim escondido)

Amo-te,
e não posso amar-te.

Desejo-te,
e não posso desejar-te.

Toquei-te,
e não posso tocar-te.

Mulher nuda


martin kovalik



Mulher nuda (ao meu amigo Coffee Break)

Essa mulher se despe à tua frente,
as roupas caídas no chão,
a pele morena, a boca quente.
Abraça-la no momento em que se entrega,
sem limites, sem guerra,
A paz total que o amor oferece
Enquanto a paixão não arrefece.
Ilumina-se o quarto com a luz da rua,
e os teus olhos deliram,
ante a magia dessa mulher nua.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Que amor não me engana - Zeca Afonso



Que amor não me engana

Que amor não me engana

Com a sua brandura

Se de antiga chama

Mal vive a amargura

Duma mancha negra

Duma pedra fria

Que amor não se entrega

Na noite vazia

E as vozes embarcam

Num silêncio aflito

Quanto mais se apartam

Mais se ouve o seu grito

Muito à flor das águas

Noite marinheira

Vem devagarinho

Para a minha beira

Em novas coutadas

Junto de uma hera

Nascem flores vermelhas

Pela Primavera

Assim tu souberas

Irmã cotovia

Dizer-me se esperas

O nascer do dia

José Afonso

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Por mais que se quebrem as pontes

Por mais que se quebrem as pontes
entre as duas margens do mesmo rio,
elas não deixarão de estar juntas,
mais não seja pelo próprio rio.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Beijo



Silêncio olhos hálito quente,
coração bate peito ardente,
sangue ferve na corrente
treme o quarto de repente

Já não sei quem me comanda
a boca, o corpo pede: anda!
A timidez já não abranda
é coração que manda.

Um tambor e um realejo
melodia de um desejo
fecho os olhos ja não vejo
sinto quase, quase um beijo.

Altos os saltos

São altos os saltos
as torres de marfim
tu lá em cima
eu cá em baixo
não te lembras de mim

Se esgotasse num grito
toda a força do peito
tu lá em cima
eu cá em baixo
sem ter qualquer efeito

Lanço a corda a escada
pra mais alto subir
tu lá em cima
eu cá em baixo
só me resta cair.

Se ganhasse um par de asas
se as soubesse usar
tu lá em cima
eu cá em baixo
ía até ti a voar.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Balzaquiana

Perco-me no redondo das tuas formas,
na tua carne que me sacia,
no teu gesto que me guia,
ao mar da fecundidade.

Entre os teus seios leite e mel,
bebo-os de um só trago,
vem depois o gosto amargo,
da minha virilidade.

Na tua boca o beijo quente,
primeiro eu, depois nós
num momento estamos sós
noutra realidade.

Dormem os corpos cansados
do desejo satisfeito
colados peito no peito
entregues em felicidade.

domingo, janeiro 06, 2008

As Palavras Interditas (Eugénio de Andrade)



AS PALAVRAS INTERDITAS


Os navios existem e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas minhas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
e estas mãos noturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade

in «As palavras Interditas» (1951)

Linha da Costa

Eram ventos e chuvas
a fustigar o navio
no convés solitário
o marinheiro com frio

ergue os olhos ao céu
num grito silencioso
pede um porto-abrigo
onde achar algum repouso

E no meio do desespero
na noite mal iluminada
irregular linha da costa
por criança desenhada

Buscando acolhimeto
ruma à praia que vê
bate a barcaça na rocha
morreu, não soube porquê.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

mil palavras em silêncio

Era silêncio e palavras

rodavam num turbilhão

cabeças embriagadas

perdidas e encontradas

no meio da emoção


O xadrez que eles jogavam

era um jogo secreto

palavras que eles trocavam

desejos que ocultavam

naquele ritmo incerto


Ela o cabelo soltou

mesmo antes de dormir

ele olhando ficou

e logo adivinhou

o que estava pra vir


Dois corpos no ar dançando

brandos gestos de ternura

braços que se vão tocando

bocas que se vão beijando

na sua doce loucura.




quarta-feira, dezembro 19, 2007

Puzzled


Quadro de Bret Zarro

Atiradas sobre a mesa
em cartão recortadas
as peças do teu puzzle
muito baralhadas

Comecei por enquadrar
para ver quanto medias
era preciso paciência
ia demorar uns dias

Mas tu ajudaste muito
construíste o que sabias
agora faltavam uns buracos
que tu não preenchias

Mas a peça que faltava
para terminar o teu retrato
estava algures perdida
caída no chão do quarto

Tu, como toda a gente,
és um puzzle completo
viver é aprender a pôr
as peças no sítio certo.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Nunca mais amarei quem não possa viver sempre - Sophia de Mello Breyner

LAMENTAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL

“A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser.
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência.
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.”

(Sophia de Mello Breyner)

domingo, dezembro 09, 2007

Para sempre

O Amor é para sempre.
Quem já não ama é porque nunca amou!

Eu não


"Uns homens dão e outros homens tomam, uns homens compram e outros homens vendem. Eu não. Tudo o que me interessa é o amor e matar a sua sede." de um conto Árabe

sexta-feira, dezembro 07, 2007

O teu abraço



Recordações, sentimentos, medos
dois corpos num mesmo espaço,
sensações, emoções, segredos,
e tudo o mais que se troca num abraço.

domingo, dezembro 02, 2007

Umas vezes me espanto, outras me envergonho!

Um soneto de amor (Sá de Miranda)

Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si
e vou tresvaliando como em sonho.

Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m´espanto às vezes, outras m´avergonho.

Que, tornando ante vós, senhora, tal,
quando m´era mister tant´outr´ajuda,
de que me valerei, se alma não val?

Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.


Li uma citação deste soneto no Abrupto e de imediato percebi o que sentia. Decorreu este fim de semana a entrega de prémios do Festival de Microfilmes de Lisboa.

É efectivamente espantoso que se tenha a coragem de levar para a frente uma iniciativa destas, que proporcionou que mais de 500 obras viessem a público. Uma iniciativa rara destas em terras portuguesas é de espantar qualquer um.

Mas envergonho-me de ter incentivado tanta gente a participar, e ver que no final o filme escolhido para representar o espírito deste festival tenha sido vergonhoso. A ver: não é original, não tem qualquer relação com o nosso país, é um filme narrado em francês legendado em inglês. Diz ter sido feito com um telemóvel, mas a legendagem levanta grandes interrogações quanto a isso. Não tem qualquer mensagem e num festival que excluía filmes com os conteúdos pornográficos ou violentos, a temática da agressão gratuita do Zidane ao Matterazi é a narrativa deste microfilme - uma vergonha!

Espanto ainda senti quando não quis acreditar que fosse verdade o que estava a ver, mas envergonhei-me de não ter percebido que um festival organizado pelas "Produções Fictícias" não era para ser levado a sério!

Esta situação afronta o coração e deixa a língua de Camões, mais uma vez muda.

Moral da história: se num festival chamado Microfilmes Lisboa o trabalho nacional não é reconhecido, onde será?