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domingo, agosto 21, 2005

(In)fertilidade

Seco,
frio, morto,
solo, sozinho, incerto,
desejo, imenso, louco,
fogo, calor, deserto.

Doce,
leite, mel,
surdo, mudo, quedo,
ciúme, amargo, fel,
vazio, estéril, medo.

Verdade,
palavra, sentir,
busca, felicidade,
flor, perfume, abrir,
terra, mãe, fertilidade!

terça-feira, julho 05, 2005

Canela

Descubro-te em segredo
no receio tenho medo
de não ser quem tu desejas

Vai-se embora a ansiedade
pois só quem ama de verdade
me beija como tu beijas

Olho-te nos olhos, mulher
Deus criou-te a mais bela
com o teu sabor tão doce
e o teu cheiro a canela!

segunda-feira, junho 13, 2005

Comunista até morrer

Pero,

portugués de la calle,

entre nosotros,

nadie nos escucha,

sabes

dónde

está Álvaro Cunhal?


Pablo Neruda in La Lámpara Marina





A Álvaro Cunhal...


Levas na mão a bandeira
vermelha do povo em luta,
na alma o fogo ardente
na voz o lamento da gente
que em silêncio te admira
e com atenção te escuta.

Rompe o céu de peito aberto
que o paraíso é certo
para quem morre a lutar.
Pobres Sachos pequeninos
Que dizem ser moinhos
Os gigantes a derrubar.

Hipocrisia política
destes verbos de encher!
Oh idealista nascido
derrotado mas não vencido,
Comunista até morrer.

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão...

Se vens à minha procura,
eu aqui estou. Toma-me, noite,
sem sombra de amargura,
consciente do que dou.

Nimba-te de mim e de luar.
Disperso em ti serei mais teu.
E deixa-me derramado no olhar
de quem já me esqueceu.


in As Mãos e os Frutos (XII)
Eugénio de Andrade

Os poetas não morrem, libertam-se da condição limitativa do corpo físico para se dispersarem por todos nós que o lemos e recordamos!

quarta-feira, maio 11, 2005

O Canto dos Poetas (ao 8ºB)

É urgente amar a poesia
descobrir nas searas
nas pedras e nos rios
as manhãs claras
os lençois frios
E os leitos onde nada se demora
Abrir a porta, ir embora.

Ergue-se alto e pálido
Com a facha em riso aberta
Fugido por um só instante
Da cova escura deserta
Na procura das moças mil,
Esse varão ousado e vil.

Era enorme a sua loucura
Só em verso se fez feliz
Foi por falta de ternura
Que bebeu cícuta em Paris
Mas deixou o desejo
Para o último momento,
Palhaços,latas e acrobatas,
O caixão sobre um jumento!

Sem rodanas nem alavancas
Ele faz avançar o mundo
Com sonho mais profundo
Entre as mãos das crianças.
Tambem cantou caravelas,
Ouro, canela e infantes.
Onde nós vemos moinhos
O poeta dos caminhos,
não se rende - vê gigantes.

Olham-te, apontam e acusam,
porque não desistes de ser
Poeta e ser mulher
Ninguém te pôs na ordem
Pois a tua natureza,
É ser pássaro voando
Abrindo asas à beleza!
Ainda tentaste ensinar,
o que não é fácil de entender
todo o que tem fome do sonho
tem a poesia - pra comer!

sábado, março 19, 2005

quarta-feira, março 02, 2005

Fidelidade.. segundo Vinicius de Morais

SONETO DE FIDELIDADE (Vinicius de Morais)


De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa dizer do meu amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.



Terrivelmente verdadeiro este soneto de Vinicius. O primeiro encanto, esse momento mágico em que tudo á nossa volta se apaga e tudo o que existiu antes já não tem qualquer significado. Depois, mesmo sem saber, tomar consciência que o AMOR é TEMPO, o tempo que se oferece ao outro, as palavras trocadas, os carinhos, a atenção e o silêncio do olhar. O tempo em que cada momento É. Mais nada, simplesmente É. Porque ao contrario dos outros momentos todos, que não são, o momento de amar é vida. Entrego-me então sem limites, entrego-me então até ao fim... quando bebo as palavras, os olhares, quando me deixo inundar por novos gostos, novos cheiros, quando o silêncio geme um sentir em segredo único e irrepetivel. O momento em que nos entregamos um ao outro, o momento em que nos misturamos os dois num só, em que a vida tem sentido, em que os Deuses nos invejam por sermos nesse instante mais divinos que eles. Ah, energia louca, que se bebe lentamente dos cantos da tua boca. Ah, calor imenso, que paraliza no sentimento a razão com que normalmento penso. Ah, sensação de viver, que num momento só ultrapassa até o prazer. Ah, acelarado coração, que perde um batimento na doce loucura da paixão! Ah, mas porque é que tem de ser assim, viver tão intensamnente e depois morrer no fim?

Morre só quem amou. A solidão é o despojo esquecido, abandonado, e talvez merecido de quem viveu em paixão. A solidão é o fim de quem ama... Vingança de Deuses invejosos, bruxas desiludidas, a separação de tudo, dos sonhos, dos corpos e das vidas.

Resta a consolação maior, que só a posso ter porque me lembro: Que seja infinito enquanto dure.

terça-feira, março 01, 2005

Começo

Março. Começa agora o novo ano. No dia 21 deste mês ocorre o Equinócio da Primavera. Façamos a festa da vida. Hoje alguém me disse: quem ama a vida tem um coração enorme. E de facto assim é, para amar, aceitar e viver a vida em pleno temos de o fazer com muito, muito AMOR. Mas não esse amor de cartões de Valentim, ou sms pré-pagos e bem pagos, mas um amor permanente, duro e verdadeiro. Aquele que nos questiona, magoa e no entanto nos faz aperciar a vida. Que se celebre a Primavera com esta festa da Luz, e que agora que os dias vão começar a crescer, que se espalhe por toda a Terra e pelas nossas vidas este novo começar. Pois a vida é um momento, cada dia que nasce é um novo começo!

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Afinal não acabou, mana...

Tocou o telefone, do outro lado da linha ela sorrindo dizia, parece que afinal não acabou...
E era verdade, não acabou mesmo. De uma maneira estranha, isto deixava-me triste! Com o meu fatalismo português, este fado que nos faz abrir garrafas de vinho tinto e comer broa de milho encharcada em gordura de sardinha assada e azeite, acreditava piamente que ela o veria. Talvez eu não, mas ela sim o veria. Mais uma vez ponho em causa a imortalidade. Já não bastara há uns anos, essa supresa que me deixou atónito, falecera Fernado Pessa! O jornalista que relatara durante a segunda guerra mundial os bombardeios a Londres como se fossem jogos de futebol, e que eu julgara ser eterno. Pensei que seria ele a entrevistar todos os meus amigos no centenário da minha morte, mas afinal também ele morreu, nem o pedalar na bicicleta todas as amanhãs o manteve eterno... Mas agora fiquei surpreso... ela esperava que eu atendesse o telefone. Mas estes momentos de absoluta consciencia da insustentavel leveza de se ser... são para ser vividos sozinho... quando por fim o telefone se calou, tomei uma vez mais consciencia que estava vivo, que as noticias ainda decorriam e que lá fora a noite, apesar de ventosa continuava, tranquila. Abandonando-me nos braços de morfeu ainda me apeteceu confirmar-lhe: Afinal não acabou, mana...

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Perguntaste-me hoje...

Perguntaste-me hoje,
Com esse sorriso tímido que nunca esquecerei,
As mais complicadas perguntas que já ouvi.
Perguntaste-me hoje, do fundo de ti.

Como responder com a verdade que mereces?
A verdade é fria e faz a gente crescer,
E por em causa tudo aquilo que levámos anos a aprender.

Se eu te pudesse responder com a mesma verdade
com que a menina, defronte da tabacaria, come chocolates.

É tão sincera a tua dúvida e a tua curiosidade,
Que nada mais merece senão a verdade.

Mas eu sei que não tenho o direito de te estragar o sonho.
Eu não posso, nem quero, que deixes já de sonhar!

Mas perturba-me e peço ajuda a quem me possa ajudar,
Como se explica o que é "sedução" a uma menina,
Que tem, ainda, muito tempo para sonhar?

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, e não te vejo!

Canção (Cecília Meireles)

Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
o lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te digo...


Se a vida é curta, intensa e bela, mas irremediavelmente curta. Falhamos quando não a saboreamos plenamente em todo o momento. Amar, essa urgência natural do ser pensante, que é no fundo a única razão de se ser. Pois o amor é, nada mais que a propria vida. Nele se gera vida, sem ele não há vida.
Quando passamos um dia a fugir do amor, estamos a fugir da própria vida, do sabor do que é ESTAR VIVO.
Amar é a aventura de viver, o momento, o tempo. Quando magoamos quem amamos, quando sentimos e negamos, quando para justificar a razão de não amar inventamos e imaginamos, estamos à espera de um amanhã em que tudo será diferente... e talvez até seja. Mas perdemos o hoje, negamos o desejo e pode ser que amanhã eu morra e já te não vejo!

sexta-feira, dezembro 31, 2004

Instante

Calmo azul infinito
No areal branco e quente
Repouso merecido
Muitos chapéus muita gente

Azul de um mar profundo
Azul mais azul que o céu
Estava um dia tão lindo
Na manhã em que a terra tremeu

No quarto de hotel tremiam
Paredes soltavam-se sorrisos
Mas nem meia hora passada
Havia confusão e gritos

E assim se prova mais uma vez
como a Natureza é inconstante
Demora séculos a criar
E destroi tudo num instante.

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Criar

Criar

Do nada que tens na mão
Uma folha branca de papel
Faz um mundo novo

Rasga-a com os dedos,
Com o teu olhar,
Ou com o teu coração

Rasga-a!

Abre-a, abre-te...
como a crisálida,
e cria.

É alma feita verso
a que chamamos poesia!



É um prazer ver nascer em vós a magia da criação. Que as vossas mãos sejam sempre capazes de criar novos mundos, a ver se um dia acertam com a fórmula e todos os sonhos do Mundo se libertam. Não sou eu que escolho o vosso caminho, são vocês que despertam! À minha turma do 8ºB, pela alegria que é lê-los criar poesia!

quarta-feira, novembro 10, 2004

Escolher é terrivel

"Um velho, na altura de morrer, chama os seus três filhos e diz-lhes:
- Não posso dividir por três o que possuo. Isso deixaria
muito pouco a cada um de vós. Decidi dar tudo em herança ao que se mostrar o mais hábil e o mais inteligente. Ou seja: ao meu melhor filho. Pousei em cima da mesa uma moeda para cada um de vós. Pegai nelas. Aquele que, com a sua moeda, comprar com que encher o telheiro terá tudo.
Partiram, o primeiro filho comprou palha, mas só conseguiu encher o telheiro até meia altura. O segundo filho comprou sacos de penas, mas também não conseguiu encher o telheiro. O terceiro comprou apenas um pequeno objecto. Era uma vela. Aguardou a noite, acendeu a vela e encheu o telheiro de luz."


História Etíope




Terrivel é o momento em que temos de fazer escolhas, terrivel mesmo. O problema das escolhas é nunca terem só um lado. Por melhor que seja a razão de uma escolha perdemos sempre. Escolher não é só dizer que sim ao escolhido, é também dizer que não ao rejeitado. Pudesse eu ter a lucidez do terceiro filho, e fazer uma escolha simples que pudesse encher de luz todo o mundo!

segunda-feira, outubro 25, 2004

O Silêncio

Algures na Arábia, um mestre e o seu discípulo caminhavam em passo lento por um terraço, a meio da noite.
De súbito, o discípulo diz a meia voz:
- Que silêncio...
- Não digas: «Que silêncio» - aconselhou o mestre - Diz: «Não oiço nada».

(História Árabe)

Dedico esta história ao Pedro, e aos seus 16 anos de curiosidade cientifica. Estive este sábado à noite meditando com ele sobre o silêncio, e sobre as pessoas estarem preparadas ou não para o silêncio. Este tema perturba-me sempre, pois como sou um fanático da comunicação, tirando o recolhimento individual, o silêncio em conjunto parece-me sempre um desperdício da oportunidade sublime de comunicar. Como diz Jacinto Lucas Pires na sua peça "Universos e Frigoríficos": o silêncio só é onde há ruído, senão nem silêncio pode ser!
Havia um poeta popular que gritava: se eu depois de morto vou em silêncio, então que fale agora enquanto a vida mo permite!
É assim que eu vejo o mundo ao meu redor, um mundo que não está em silêncio, mas dele não oiço nada!

sexta-feira, outubro 15, 2004


Se tudo não passa de um sonho, quem dorme? Posted by Hello

O Sonho da Borboleta

Um homem sonha que é uma borboleta. Revoluteia com leveza de flor em flor, abrindo e fechando as suas asas, sem a mais ténue lembrança da sua natureza humana.
Quando acorda, percebe com espanto que é um homem.
Mas será ele um homem que acaba de sonhar que era uma borboleta? Ou uma borboleta a sonhar que é um homem?

(História Chinesa de Tchung-tsé)

quinta-feira, setembro 30, 2004

Código da Vinci

De tempos a tempos aparece um livro que se torna fenómeno de vendas, o que imediatamente provoca dois efeitos:
- Primeiro, alguém vai ganhar muito dinheiro.
- Segundo, alguém que nunca leu uma obra completa vai fazê-lo pela primeira vez.
Pessoalmente invisto uma boa parte do meu dinheiro em livros. Tenho esta paixão desmedida pela leitura desde pequeno, e fico contente por saber que os livros ainda despertam novas paixões.
Nesta época em que o Harry Potter é o livro mais vendido do mundo - ou melhor, os livros - pois cada novo livro parece ser um sucesso igualando ou superando o seu precessor - só me posso sentir contente por tal facto.
Este verão ninguém conseguiu passar ao lado do livro de Dan Brown: O CÓDIGO DA VINCI. O sucesso da obra foi tal que imediatamente as editoras encheram o mercado de livros complementares, suplementares e auxiliares à obra. Mas que verdades nos revela o livro? De que maneira muda ele a nossa perspectiva da arte, da sociedade, da religião, a imagem de Leonardo - para mim o único génio completo desde Arquimedes - dá-nos respostas ou acrescenta-nos mais interrogações?
Será que a obra atinge todos da mesma maneira? Levanta a todos as mesmas problemáticas? Será mera ficção, ou esconderá um trabalho cientifico sério e bem documentado?

segunda-feira, setembro 20, 2004

Arlequim

Sai da tela o Arlequim
Sai do palco, e das cantigas
Sai dos poemas rebeldes
Dos beijos das raparigas

Leva a esperança contigo
Leva o sonho até ao fim
Poeta, actor, amigo
Mestre, artista... e Arlequim

Sair do Quadro para a Vida Posted by Hello