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domingo, novembro 23, 2025

Auto-retrato aos 50 e muitos

 

 
Sou um sopro de vento,
Uma ideia louca, um pensamento.
Um andar cambado nas ruas da vida.
Uma alma cósmica que anda perdida.
Sou um tudo que vive, num instante só.
Uma guitarra que chora num caminho de pó.
Um sonho acordado na pele rasgada
E na algibeira um resto de nada.
Sou poeta falido que morre à míngua,
Desenho desejos num golpe de língua
Um abraço em silêncio na esquina da rua
E um quarto inventado para te ver nua.
Sou a lua cheia e o quarto crescente
Um andarilho à deriva no meio da gente
Sou pó das estrelas, sou gato vadio
Moro na serra, vejo ao fundo o rio.
Sou pedra, sou luz e sou solidão
Sou um corpo vencido que tomba no chão.
Sou eterno sorriso de criança louca,
Sou o beijo esquecido ao canto da boca.
Sou medo disfarçado de ousadia,
Sou madrugada que espera o nascer do dia.
Um dia, sem alvorada, acordo por fim
Embalado na tua voz que chama por mim.
Duas palavras apenas de mim vão escrever:
Aqui jaz um homem que gostou de viver.
 
Savinien