domingo, outubro 09, 2005

O Escorpião e a Rã

Arde a floresta num fogo
incêndio cru e violento,
fogem os animais em espanto
em busca de salvamento.

Correm até ao rio,
mas param na sua margem,
Quem não sabe nadar,
acaba aqui a viagem.

Um escorpião em desespero
pede ajuda à meiga rã
se ela não o socorrer
estará morto pela manhã.

"Tomas-me por parva a mim,
que te conheço de gingeira?
Antes da viagem acabar,
matas-me à tua maneira!"

"Não sou louco a tal ponto,
também gosto de viver...
Se te fizer algum mal,
também eu vou morrer"

O coração amolece
e rã, toda ternura,
dá boleia ao escorpião
e começa a aventura.

Nada a rã até ao meio
do rio que os vai salvar
sente uma picada nas costas
e não quer acreditar!

Seu corpo envenenado
vai ao poucos parando
e afunda-se nas aguas
estão-se os dois afogando!

"Oh escorpião traçoeiro,
assim vamos morrer!"
"É assim que eu sou...
E nada posso fazer"

O Cinema













O Cinema, conta histórias.
O Cinema cria ou aviva certas memórias.
O Cinema tem movimento desde que nasceu
mas só ganhou cor e som quando cresceu.
O Cinema pode ser doce ou amargo,
salgadinho ou picante.
É a um tempo secreto,
sensual e estimulante.
Mas para ser inteiro,
falta ao Cinéma a magia,
que nos trás à vida o cheiro!

sexta-feira, outubro 07, 2005

O dia em que a Terra parou

Estava tudo perdido mas ninguém se importava
Ninguém estava contente com a vida que levava
Mas houve uma altura em que tudo mudou
Foi num certo dia em que a Terra parou

Um político cumpriu tudo o que prometeu
Mesmo as velhas promessas que o povo esqueceu
E sentiu-se tão bem que o seu cargo deixou
Foi na manhã do dia em que a Terra parou

Um artista de circo escorregou e ao cair
Viu pela primeira vez o público a sorrir
Bateram-lhe palmas mas ele morto ficou
Foi na tarde do dia em que a Terra parou

E a mulher do padeiro que dormia de dia
Passou a faze-lo de noite como lhe competia
Recordo a alegria com que o padeiro ficou
Na noite do dia em que a Terra parou

Parecia que a vida ia toda mudar
Que todo mundo podia enfim festejar
Mas a Terra moveu-se e de novo rodou
E acabou o dia em que Terra parou.

quinta-feira, outubro 06, 2005

Um passo mais

Segui na noite
Por entre os becos
Fugindo sempre
Dos mesmos medos

Lutar por ser
Querer viver
Meter na vida
A fantasia da alegria

Na beira do abismo
Um passo mais
Um passo a mais
Um passo de mais!

terça-feira, outubro 04, 2005

Ter loucura sem ser doida

Há quanto tempo foi?
Há quanto tempo foi que te deixaste ir na loucura sem ser doida?
Estava o Sol exactamente no mesmo sítio,
E no ar havia os risos de gente que já cá não está.
Há quanto tempo foi?
Há quanto tempo foi que a porta se fechou,
E tu de pé eras maior que o mundo todo?
E os tons de azul, o silêncio e os cheiros inundavam o ar,
E as bocas se aproximaram, muito devagarinho para se beijar?
Há quanto tempo foi?
Há quanto tempo foi que a janela se fechou,
E a cama testemunhou a loucura de estar ali,
Completamente,
Um do outro... como se nada mais existisse senão nós?
Não seria isso ter loucura sem ser doida?
Há quanto tempo foi?
Que os nossos corpos se tocaram, se sentiram, se amaram,
E no suave mumúrio da voz,
dissemos pela primeira vez, "nós"!
Há quanto tempo foi?
Há quanto tempo foi que vivemos sem leis fatais,
Que não quisemos entender, apenas amar e viver?
É bom ser inteligente e não entender!
É bom quando para nós o amar é viver,
É bom quando sentimos que a vida nos corre nas veias,
Quando sentimos que o coração quer rebentar,
Quando o desejo cresce, um no outro até aos momentos finais,
E no momento do prazer, toda a alma dizer: "Quero mais. quero mais"?
Há quanto tempo foi?
Há quanto tempo foi que celebramos a vida, a alegria e o amor?
Há quanto tempo foi que a porta se fechou pela última vez,
e o cheiro da pele molhada se dissipou no ar?
Não preciso de entender, vivi e sei que foi verdadeiro,
Recordo cada momento, cada sentimento, sem último e sem primeiro!
No momento em que nos amavamos mais ninguém podia amar,
Porque todo o amor do mundo, do mais discreto ao mais profundo,
Estava lá connosco, no ar.
Há quanto tempo foi?

segunda-feira, outubro 03, 2005

Corpos - No dia do Eclipse Solar

Meu corpo quente em que te encostas
Teu corpo frio em contraste com o coração
Teu interior feminino onde arde a paixão.

Deslizas suave sobre mim,
Numa dança que nos embala, atrasando o fim.
Uma entrega total,
Corpo sombra, corpo luz.
Nesse aroma intenso que nos invade e seduz.

Um movimento firme, uma boca que morde
Um abraço apertado, mão que agarra forte.

Com o grito surdo que só nós ouvimos
gritamos a magia que nos corpos sentimos
A pele larga a loucura, numa paz que acalma,
E numa magia contemplamos dentro dos olhos a alma.

Este é o momento supremo em que a vida faz sentido
Quando este corpo que tenho está fundido contigo!