quarta-feira, janeiro 30, 2008

A morte saiu à rua

A Morte saiu à Rua - Zeca Afonso

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação.


Foto de William Klein(NY, 1954)


A morte saiu à rua uma noite passada
E dois corpos jovens tombaram
no meio de uma estrada.

Foi o ódio que os matou,
não a bala na cabeça,
antes de morrer já estavam mortos.
E quem os matou fomos nós.
Podem ter a certeza.

Osvaldo, Francisco e os sem nome,
nossos filhos ou do Patolas?
Em vez de serem míudos,
vendem droga, usam facas e matam com pistolas.

E é quase natural haver contas pra ajustar.
E o povo vai levando, com a brandura habitual,
é que a vida vale menos só por ser um marginal.

Deviam matar-se todos, grita o velho reformado
até ver que é o seu neto que jaz na estrada deitado.

É tudo um bando de pretos, que não querem trabalhar,
mas era um miudo branco que a policia foi buscar.

Era filho, era amigo, e escreveu o seu destino,
matou um do gangue rival, e ficou um assassino.

E na fuga em bando de putos, o novo heroi perfeito,
estica o braço a um amigo e acerta-lhe no peito.

Assaltam miudos do liceu, levam ténis telemoveis,
e coisas estranhas até.
Acabou com duas mortes, mas começou num boné!

E fechamos nós os olhos, enterramos a cabeça na areia
fechamos a boca, as janelas, as portas, pra não levar uma tareia.

Diz o poeta inglês: que a Sintra não damos valor,
pois é bem perto de Sintra, que se vive um tal horror.

Este lugar já não tem nome,
Já não é o meu país,
é uma replica pobre daquilo que eu nunca quis.

domingo, janeiro 20, 2008

Paradoxos



Paradoxos
(em memória de um jardim escondido)

Amo-te,
e não posso amar-te.

Desejo-te,
e não posso desejar-te.

Toquei-te,
e não posso tocar-te.

Mulher nuda


martin kovalik



Mulher nuda (ao meu amigo Coffee Break)

Essa mulher se despe à tua frente,
as roupas caídas no chão,
a pele morena, a boca quente.
Abraça-la no momento em que se entrega,
sem limites, sem guerra,
A paz total que o amor oferece
Enquanto a paixão não arrefece.
Ilumina-se o quarto com a luz da rua,
e os teus olhos deliram,
ante a magia dessa mulher nua.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Que amor não me engana - Zeca Afonso



Que amor não me engana

Que amor não me engana

Com a sua brandura

Se de antiga chama

Mal vive a amargura

Duma mancha negra

Duma pedra fria

Que amor não se entrega

Na noite vazia

E as vozes embarcam

Num silêncio aflito

Quanto mais se apartam

Mais se ouve o seu grito

Muito à flor das águas

Noite marinheira

Vem devagarinho

Para a minha beira

Em novas coutadas

Junto de uma hera

Nascem flores vermelhas

Pela Primavera

Assim tu souberas

Irmã cotovia

Dizer-me se esperas

O nascer do dia

José Afonso

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Por mais que se quebrem as pontes

Por mais que se quebrem as pontes
entre as duas margens do mesmo rio,
elas não deixarão de estar juntas,
mais não seja pelo próprio rio.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Beijo



Silêncio olhos hálito quente,
coração bate peito ardente,
sangue ferve na corrente
treme o quarto de repente

Já não sei quem me comanda
a boca, o corpo pede: anda!
A timidez já não abranda
é coração que manda.

Um tambor e um realejo
melodia de um desejo
fecho os olhos ja não vejo
sinto quase, quase um beijo.

Altos os saltos

São altos os saltos
as torres de marfim
tu lá em cima
eu cá em baixo
não te lembras de mim

Se esgotasse num grito
toda a força do peito
tu lá em cima
eu cá em baixo
sem ter qualquer efeito

Lanço a corda a escada
pra mais alto subir
tu lá em cima
eu cá em baixo
só me resta cair.

Se ganhasse um par de asas
se as soubesse usar
tu lá em cima
eu cá em baixo
ía até ti a voar.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Balzaquiana

Perco-me no redondo das tuas formas,
na tua carne que me sacia,
no teu gesto que me guia,
ao mar da fecundidade.

Entre os teus seios leite e mel,
bebo-os de um só trago,
vem depois o gosto amargo,
da minha virilidade.

Na tua boca o beijo quente,
primeiro eu, depois nós
num momento estamos sós
noutra realidade.

Dormem os corpos cansados
do desejo satisfeito
colados peito no peito
entregues em felicidade.

domingo, janeiro 06, 2008

As Palavras Interditas (Eugénio de Andrade)



AS PALAVRAS INTERDITAS


Os navios existem e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas minhas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
e estas mãos noturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade

in «As palavras Interditas» (1951)

Linha da Costa

Eram ventos e chuvas
a fustigar o navio
no convés solitário
o marinheiro com frio

ergue os olhos ao céu
num grito silencioso
pede um porto-abrigo
onde achar algum repouso

E no meio do desespero
na noite mal iluminada
irregular linha da costa
por criança desenhada

Buscando acolhimeto
ruma à praia que vê
bate a barcaça na rocha
morreu, não soube porquê.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

mil palavras em silêncio

Era silêncio e palavras

rodavam num turbilhão

cabeças embriagadas

perdidas e encontradas

no meio da emoção


O xadrez que eles jogavam

era um jogo secreto

palavras que eles trocavam

desejos que ocultavam

naquele ritmo incerto


Ela o cabelo soltou

mesmo antes de dormir

ele olhando ficou

e logo adivinhou

o que estava pra vir


Dois corpos no ar dançando

brandos gestos de ternura

braços que se vão tocando

bocas que se vão beijando

na sua doce loucura.