quarta-feira, dezembro 28, 2005

Porque - Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN



Como estas palavras me tocam cá no fundo.
Porque é preciso coragem para ser diferente,
porque o mundo não aceita toda a gente.
Porque neste mundo estão muito frios os corações,
mesmo deste povo que, no Natal, só sms enviou 750 milhoes!

terça-feira, dezembro 13, 2005

Natal

Quente guardado em segredo
nesse misterioso berço,
menino que vais nascer
que eu não sei se mereço.

Pudesse aplanar teu mundo
excluir todo o mal,
Dar-te de presente o futuro
numa manhã de Natal.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Vi(R)agens


Passo, passo, passo
viagem dura que faço

sempre, sempre, sempre
não parar, seguir em frente

volta, volta, volta
não volta, voltar é derrota

Perna, pé, agita a mão
olhos em frente, bate o coração

E a gente sente,
não parar
Cada etapa é um novo começar.

Cada etapa é uma viagem,
Cada curva é uma viragem!

Para o Pedro

quarta-feira, novembro 30, 2005

Aos olhos de tua mãe

Os teus olhos de menino
Já há muito os perdeste
Levados no turbilhão
Desta vida que escolheste

Pessoas passam por ti
Umas fingem não te ver
Outras olham-te de frente
Temendo o que lhes vais fazer

Mas em ti ainda vive
Essa alma de menino.
Aos olhos de tua mãe
Serás sempre pequenino.

E mundo todo inteiro
Não balança com a razão
Esse amor tão perfeito
Que ela tem no coração


O tempo passa certeiro
Sem nunca voltar pra trás
Se quisesses tu mudavas
Mas nem vês se és capaz


Tanta dôr e sofrimento
Tanto tempo sem dizer
É na ausência da notícia
Que mais a fazes sofrer

Quem te vê a vaguear
Pelas ruas sem destino
Não consegue imaginar
Como foste em pequenino

Talvez olhando pra ela
Nos olhos do coração
Sintas o amor que guarda
Para pôr na tua mão

domingo, novembro 27, 2005

Em ti se guarda a vida

Mulher de olhos profundos,
com um coração sem fim,
ouve as singelas palavras
que vêm do fundo de mim.

Toda a vida é pra viver,
não é pra pensarmos nela,
só vivendo cada instante,
a descobrimos tão bela.

Não podemos ser sozinhos,
essa é nossa condição.
Não podemos dar as ordens
pra dentro do coração.

O coração é um cego louco
Que só ama quem ele quer,
E o amor é mais profundo,
quando a alma é de mulher.

Agarra, então, essa magia,
vive o amor sem medida,
Sorri com doce alegria,
Pois em ti se guarda a vida!

Para a Ana...

quarta-feira, novembro 23, 2005

Vermelho sobre Areia

Vermelho sobre Areia
Há, sobre a areia da praia,
uma flor vermelha
de encarnado sangue.

É discreta no tamanho,
invisível a quem passa,
distraído ou mais distante.

Mas, quem lhe desvenda o odor
de intenso perfume,
sente as cores da flor,
queimar-lhe os olhos como lume.

São estas pétalas carmim,
sobre a branca areia quente
a mais verdadeira prova,
do desejo que anima a gente!

Oh, flor vermelha caída,
sozinha na areia molhada.
És a prova mais eterna,
dessa paixão saciada.

Lê-se nas pétalas escuras,
que no calor do desejo,
te entregaste na loucura,
e tudo começou com um beijo!

Depois das outras loucuras,
regressa a paixão maioral.
Memória da rosa vermelha,
que plantaste no areal!

quarta-feira, novembro 16, 2005

Memória - Carlos Drummond de Andrade

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, novembro 14, 2005

Memória




Não recordo, não me lembro, não conto nenhuma história.
Sem amor, sem sentimento, sem derrota nem vitória.
Já não vivo, já morri, a permanência é ilusória.
Já nada tenho de ti, nem do cheiro a memória!

quarta-feira, novembro 09, 2005

Para sempre



13-05-1980 a 21-10-2005

Eras tão pequenino,
na palma da minha mão.
Coberto de penas fofinhas,
acelerado bater dum coração.

Esse olhar curioso,
um bico que parecia sorrir,
penas de brilho lustroso,
uma asita sempre a abrir.

Como ave de casa,
Sem muito por onde voar,
tinhas a alegria da vida
sem muito pra desejar.

Amaste, tiveste filhos,
ficaste perto de nós.
Foi numa noite de outono,
que nos deixaste sós.

Ah, ave linda sem par,
voa com majestade,
por esse céu aberto,
pleno de Liberdade!

sexta-feira, novembro 04, 2005

Dois

Um mais um, dois!
Dois corpos...
Duas formas,
encaixe perfeito,
Peito no peito.
Ventre no ventre.
Coração bate,
Coração sente,
Segunda vez,
Outra vez,
Outra e sempre,
primeira vez.
A um tempo carinhoso
suave, quente, gostoso...
A outro tempo, mais rápido,
embalado, sequiso.
Torna-se, depois violento,
apaixonado, furioso.
E é sentimento trocado,
num liquido saboroso.
Dois abriram porta,
dois entraram no quarto,
dois se deitaram cama,
dois olhos em dois olhos,
duas almas juntas...
São só um quando se ama.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Os dois cães

Um aluno, curioso, chegou ao pé do professor, que estava muito pensativo, e perguntou-lhe:
- Em que pensa?
- Penso que eu, como todo o ser humano, tenho dentro de mim dois cães. Um deles é bom, amigo, procura a paz, a harmonia e a felicidade de todos. O outro é mau, cruel, egoísta, incita a discórdia e a confusão, é intolerante e orgulhoso. Estes cães estão em permanente luta um com o outro...
- E qual deles ganha? - Perguntou o aluno.
O professor olhou-o nos olhos e disse:
- Aquele que eu alimentar!

domingo, outubro 09, 2005

O Escorpião e a Rã

Arde a floresta num fogo
incêndio cru e violento,
fogem os animais em espanto
em busca de salvamento.

Correm até ao rio,
mas param na sua margem,
Quem não sabe nadar,
acaba aqui a viagem.

Um escorpião em desespero
pede ajuda à meiga rã
se ela não o socorrer
estará morto pela manhã.

"Tomas-me por parva a mim,
que te conheço de gingeira?
Antes da viagem acabar,
matas-me à tua maneira!"

"Não sou louco a tal ponto,
também gosto de viver...
Se te fizer algum mal,
também eu vou morrer"

O coração amolece
e rã, toda ternura,
dá boleia ao escorpião
e começa a aventura.

Nada a rã até ao meio
do rio que os vai salvar
sente uma picada nas costas
e não quer acreditar!

Seu corpo envenenado
vai ao poucos parando
e afunda-se nas aguas
estão-se os dois afogando!

"Oh escorpião traçoeiro,
assim vamos morrer!"
"É assim que eu sou...
E nada posso fazer"

O Cinema













O Cinema, conta histórias.
O Cinema cria ou aviva certas memórias.
O Cinema tem movimento desde que nasceu
mas só ganhou cor e som quando cresceu.
O Cinema pode ser doce ou amargo,
salgadinho ou picante.
É a um tempo secreto,
sensual e estimulante.
Mas para ser inteiro,
falta ao Cinéma a magia,
que nos trás à vida o cheiro!

sexta-feira, outubro 07, 2005

O dia em que a Terra parou

Estava tudo perdido mas ninguém se importava
Ninguém estava contente com a vida que levava
Mas houve uma altura em que tudo mudou
Foi num certo dia em que a Terra parou

Um político cumpriu tudo o que prometeu
Mesmo as velhas promessas que o povo esqueceu
E sentiu-se tão bem que o seu cargo deixou
Foi na manhã do dia em que a Terra parou

Um artista de circo escorregou e ao cair
Viu pela primeira vez o público a sorrir
Bateram-lhe palmas mas ele morto ficou
Foi na tarde do dia em que a Terra parou

E a mulher do padeiro que dormia de dia
Passou a faze-lo de noite como lhe competia
Recordo a alegria com que o padeiro ficou
Na noite do dia em que a Terra parou

Parecia que a vida ia toda mudar
Que todo mundo podia enfim festejar
Mas a Terra moveu-se e de novo rodou
E acabou o dia em que Terra parou.

quinta-feira, outubro 06, 2005

Um passo mais

Segui na noite
Por entre os becos
Fugindo sempre
Dos mesmos medos

Lutar por ser
Querer viver
Meter na vida
A fantasia da alegria

Na beira do abismo
Um passo mais
Um passo a mais
Um passo de mais!

terça-feira, outubro 04, 2005

Ter loucura sem ser doida

Há quanto tempo foi?
Há quanto tempo foi que te deixaste ir na loucura sem ser doida?
Estava o Sol exactamente no mesmo sítio,
E no ar havia os risos de gente que já cá não está.
Há quanto tempo foi?
Há quanto tempo foi que a porta se fechou,
E tu de pé eras maior que o mundo todo?
E os tons de azul, o silêncio e os cheiros inundavam o ar,
E as bocas se aproximaram, muito devagarinho para se beijar?
Há quanto tempo foi?
Há quanto tempo foi que a janela se fechou,
E a cama testemunhou a loucura de estar ali,
Completamente,
Um do outro... como se nada mais existisse senão nós?
Não seria isso ter loucura sem ser doida?
Há quanto tempo foi?
Que os nossos corpos se tocaram, se sentiram, se amaram,
E no suave mumúrio da voz,
dissemos pela primeira vez, "nós"!
Há quanto tempo foi?
Há quanto tempo foi que vivemos sem leis fatais,
Que não quisemos entender, apenas amar e viver?
É bom ser inteligente e não entender!
É bom quando para nós o amar é viver,
É bom quando sentimos que a vida nos corre nas veias,
Quando sentimos que o coração quer rebentar,
Quando o desejo cresce, um no outro até aos momentos finais,
E no momento do prazer, toda a alma dizer: "Quero mais. quero mais"?
Há quanto tempo foi?
Há quanto tempo foi que celebramos a vida, a alegria e o amor?
Há quanto tempo foi que a porta se fechou pela última vez,
e o cheiro da pele molhada se dissipou no ar?
Não preciso de entender, vivi e sei que foi verdadeiro,
Recordo cada momento, cada sentimento, sem último e sem primeiro!
No momento em que nos amavamos mais ninguém podia amar,
Porque todo o amor do mundo, do mais discreto ao mais profundo,
Estava lá connosco, no ar.
Há quanto tempo foi?

segunda-feira, outubro 03, 2005

Corpos - No dia do Eclipse Solar

Meu corpo quente em que te encostas
Teu corpo frio em contraste com o coração
Teu interior feminino onde arde a paixão.

Deslizas suave sobre mim,
Numa dança que nos embala, atrasando o fim.
Uma entrega total,
Corpo sombra, corpo luz.
Nesse aroma intenso que nos invade e seduz.

Um movimento firme, uma boca que morde
Um abraço apertado, mão que agarra forte.

Com o grito surdo que só nós ouvimos
gritamos a magia que nos corpos sentimos
A pele larga a loucura, numa paz que acalma,
E numa magia contemplamos dentro dos olhos a alma.

Este é o momento supremo em que a vida faz sentido
Quando este corpo que tenho está fundido contigo!

terça-feira, setembro 27, 2005

Nada em ti

Há uma folha branca sobre a mesa de tábua
em que te desenho.
Em que ponho tudo o que de ti sei, vejo ou sinto.
Desenho simples, a preto...
Quero pôr no papel tudo o que um dia senti.
Guardar para mim as memórias todas.
Nada em ti!

domingo, agosto 21, 2005

(In)fertilidade

Seco,
frio, morto,
solo, sozinho, incerto,
desejo, imenso, louco,
fogo, calor, deserto.

Doce,
leite, mel,
surdo, mudo, quedo,
ciúme, amargo, fel,
vazio, estéril, medo.

Verdade,
palavra, sentir,
busca, felicidade,
flor, perfume, abrir,
terra, mãe, fertilidade!

terça-feira, julho 05, 2005

Canela

Descubro-te em segredo
no receio tenho medo
de não ser quem tu desejas

Vai-se embora a ansiedade
pois só quem ama de verdade
me beija como tu beijas

Olho-te nos olhos, mulher
Deus criou-te a mais bela
com o teu sabor tão doce
e o teu cheiro a canela!

segunda-feira, junho 13, 2005

Comunista até morrer

Pero,

portugués de la calle,

entre nosotros,

nadie nos escucha,

sabes

dónde

está Álvaro Cunhal?


Pablo Neruda in La Lámpara Marina





A Álvaro Cunhal...


Levas na mão a bandeira
vermelha do povo em luta,
na alma o fogo ardente
na voz o lamento da gente
que em silêncio te admira
e com atenção te escuta.

Rompe o céu de peito aberto
que o paraíso é certo
para quem morre a lutar.
Pobres Sachos pequeninos
Que dizem ser moinhos
Os gigantes a derrubar.

Hipocrisia política
destes verbos de encher!
Oh idealista nascido
derrotado mas não vencido,
Comunista até morrer.

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão...

Se vens à minha procura,
eu aqui estou. Toma-me, noite,
sem sombra de amargura,
consciente do que dou.

Nimba-te de mim e de luar.
Disperso em ti serei mais teu.
E deixa-me derramado no olhar
de quem já me esqueceu.


in As Mãos e os Frutos (XII)
Eugénio de Andrade

Os poetas não morrem, libertam-se da condição limitativa do corpo físico para se dispersarem por todos nós que o lemos e recordamos!

quarta-feira, maio 11, 2005

O Canto dos Poetas (ao 8ºB)

É urgente amar a poesia
descobrir nas searas
nas pedras e nos rios
as manhãs claras
os lençois frios
E os leitos onde nada se demora
Abrir a porta, ir embora.

Ergue-se alto e pálido
Com a facha em riso aberta
Fugido por um só instante
Da cova escura deserta
Na procura das moças mil,
Esse varão ousado e vil.

Era enorme a sua loucura
Só em verso se fez feliz
Foi por falta de ternura
Que bebeu cícuta em Paris
Mas deixou o desejo
Para o último momento,
Palhaços,latas e acrobatas,
O caixão sobre um jumento!

Sem rodanas nem alavancas
Ele faz avançar o mundo
Com sonho mais profundo
Entre as mãos das crianças.
Tambem cantou caravelas,
Ouro, canela e infantes.
Onde nós vemos moinhos
O poeta dos caminhos,
não se rende - vê gigantes.

Olham-te, apontam e acusam,
porque não desistes de ser
Poeta e ser mulher
Ninguém te pôs na ordem
Pois a tua natureza,
É ser pássaro voando
Abrindo asas à beleza!
Ainda tentaste ensinar,
o que não é fácil de entender
todo o que tem fome do sonho
tem a poesia - pra comer!

quarta-feira, março 02, 2005

Fidelidade.. segundo Vinicius de Morais

SONETO DE FIDELIDADE (Vinicius de Morais)


De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa dizer do meu amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.



Terrivelmente verdadeiro este soneto de Vinicius. O primeiro encanto, esse momento mágico em que tudo á nossa volta se apaga e tudo o que existiu antes já não tem qualquer significado. Depois, mesmo sem saber, tomar consciência que o AMOR é TEMPO, o tempo que se oferece ao outro, as palavras trocadas, os carinhos, a atenção e o silêncio do olhar. O tempo em que cada momento É. Mais nada, simplesmente É. Porque ao contrario dos outros momentos todos, que não são, o momento de amar é vida. Entrego-me então sem limites, entrego-me então até ao fim... quando bebo as palavras, os olhares, quando me deixo inundar por novos gostos, novos cheiros, quando o silêncio geme um sentir em segredo único e irrepetivel. O momento em que nos entregamos um ao outro, o momento em que nos misturamos os dois num só, em que a vida tem sentido, em que os Deuses nos invejam por sermos nesse instante mais divinos que eles. Ah, energia louca, que se bebe lentamente dos cantos da tua boca. Ah, calor imenso, que paraliza no sentimento a razão com que normalmento penso. Ah, sensação de viver, que num momento só ultrapassa até o prazer. Ah, acelarado coração, que perde um batimento na doce loucura da paixão! Ah, mas porque é que tem de ser assim, viver tão intensamnente e depois morrer no fim?

Morre só quem amou. A solidão é o despojo esquecido, abandonado, e talvez merecido de quem viveu em paixão. A solidão é o fim de quem ama... Vingança de Deuses invejosos, bruxas desiludidas, a separação de tudo, dos sonhos, dos corpos e das vidas.

Resta a consolação maior, que só a posso ter porque me lembro: Que seja infinito enquanto dure.

terça-feira, março 01, 2005

Começo

Março. Começa agora o novo ano. No dia 21 deste mês ocorre o Equinócio da Primavera. Façamos a festa da vida. Hoje alguém me disse: quem ama a vida tem um coração enorme. E de facto assim é, para amar, aceitar e viver a vida em pleno temos de o fazer com muito, muito AMOR. Mas não esse amor de cartões de Valentim, ou sms pré-pagos e bem pagos, mas um amor permanente, duro e verdadeiro. Aquele que nos questiona, magoa e no entanto nos faz aperciar a vida. Que se celebre a Primavera com esta festa da Luz, e que agora que os dias vão começar a crescer, que se espalhe por toda a Terra e pelas nossas vidas este novo começar. Pois a vida é um momento, cada dia que nasce é um novo começo!

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Afinal não acabou, mana...

Tocou o telefone, do outro lado da linha ela sorrindo dizia, parece que afinal não acabou...
E era verdade, não acabou mesmo. De uma maneira estranha, isto deixava-me triste! Com o meu fatalismo português, este fado que nos faz abrir garrafas de vinho tinto e comer broa de milho encharcada em gordura de sardinha assada e azeite, acreditava piamente que ela o veria. Talvez eu não, mas ela sim o veria. Mais uma vez ponho em causa a imortalidade. Já não bastara há uns anos, essa supresa que me deixou atónito, falecera Fernado Pessa! O jornalista que relatara durante a segunda guerra mundial os bombardeios a Londres como se fossem jogos de futebol, e que eu julgara ser eterno. Pensei que seria ele a entrevistar todos os meus amigos no centenário da minha morte, mas afinal também ele morreu, nem o pedalar na bicicleta todas as amanhãs o manteve eterno... Mas agora fiquei surpreso... ela esperava que eu atendesse o telefone. Mas estes momentos de absoluta consciencia da insustentavel leveza de se ser... são para ser vividos sozinho... quando por fim o telefone se calou, tomei uma vez mais consciencia que estava vivo, que as noticias ainda decorriam e que lá fora a noite, apesar de ventosa continuava, tranquila. Abandonando-me nos braços de morfeu ainda me apeteceu confirmar-lhe: Afinal não acabou, mana...

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Perguntaste-me hoje...

Perguntaste-me hoje,
Com esse sorriso tímido que nunca esquecerei,
As mais complicadas perguntas que já ouvi.
Perguntaste-me hoje, do fundo de ti.

Como responder com a verdade que mereces?
A verdade é fria e faz a gente crescer,
E por em causa tudo aquilo que levámos anos a aprender.

Se eu te pudesse responder com a mesma verdade
com que a menina, defronte da tabacaria, come chocolates.

É tão sincera a tua dúvida e a tua curiosidade,
Que nada mais merece senão a verdade.

Mas eu sei que não tenho o direito de te estragar o sonho.
Eu não posso, nem quero, que deixes já de sonhar!

Mas perturba-me e peço ajuda a quem me possa ajudar,
Como se explica o que é "sedução" a uma menina,
Que tem, ainda, muito tempo para sonhar?

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, e não te vejo!

Canção (Cecília Meireles)

Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
o lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te digo...


Se a vida é curta, intensa e bela, mas irremediavelmente curta. Falhamos quando não a saboreamos plenamente em todo o momento. Amar, essa urgência natural do ser pensante, que é no fundo a única razão de se ser. Pois o amor é, nada mais que a propria vida. Nele se gera vida, sem ele não há vida.
Quando passamos um dia a fugir do amor, estamos a fugir da própria vida, do sabor do que é ESTAR VIVO.
Amar é a aventura de viver, o momento, o tempo. Quando magoamos quem amamos, quando sentimos e negamos, quando para justificar a razão de não amar inventamos e imaginamos, estamos à espera de um amanhã em que tudo será diferente... e talvez até seja. Mas perdemos o hoje, negamos o desejo e pode ser que amanhã eu morra e já te não vejo!