domingo, dezembro 13, 2009

Rafa Freitas - A força de um poema

É impossível ficar indiferente ás palavras sentidas deste poeta urbano de 16 anos que tive o privilégio de conhecer numa tertúlia em Caneças.

segunda-feira, novembro 30, 2009

Diz (uma oração no silêncio)


Foto de João Pedro Sousa


Escuta, já é só silêncio

E está frio aqui.

Escuta, há um espaço imenso

Onde antes estavas tu

E eu nem notava o quanto ele ocupava.

Escuta, está cada vez mais frio

Aqui, onde o silêncio invade

Tudo e o preenche de nada.

Agora fala, diz uma palavra

Para que eu entenda.

Para que acredite.

Para que aprenda.


Rasga de uma vez este muro

frio, esta pedra que nos separa

de forma tão crua

quanto definitiva.


Faz do silêncio a esperança

que a realidade me nega

e diz que tudo tem sentido.


Diz, diz tu, que eu não consigo!


Alexandre

quinta-feira, novembro 26, 2009

Mumúrios


"Whisper" by Maria Hathaway Spencer

Primeiro a consciência plena de mim,
O primeiro passo é sempre
O começo do fim.
Depois o silêncio, a calma profunda,
O esquecer a vida.
E, então, rasgando a vontade
Como uma ave que mergulha no azul do mar,
O desejo que, inexoravelmente, se deixa afogar.

Saltam da memória texturas, aromas,
Santinhas pintadas de azul,
Desfiar de credos e orações.
Depois, ganham ritmo obscenidades,
Insultos, palavrões…
Vagas imensas, penedos rijos,
Espumas frementes.
Línguas, lábios, dedos,
Cabelos mordidos,
Esmagados nos dentes.

E depois Hiroxima, Nagasaki,
Balões de S. João pela noite a voar,
Fogo de artificio no parque,
Sétimo céu, o sétimo sou eu:
E já nada te impede de gritar!

Uma pausa, e o titã adormecido,
Jaz na praia estendido,
Incapaz de articular,
E seus olhos, são prata, são ouro, mercúrio,
E o silêncio se gasta,
No inteligir dum murmúrio.

Alexandre

segunda-feira, novembro 16, 2009

O Silêncio

Por mais que me digam
Que é Natural,
Que faz parte da vida,

A verdade é que,
Quando alguém parte,
Fica um silêncio medonho.

quinta-feira, outubro 29, 2009

Muros - As palavras são pontes.



Imagem retirada daqui


As palavras são pontes por cima dos muros.
São navios sulcando o mar
São sonhos, são desejos, são segredos,
São criatividade, são amizade, são confiança,
São sensações novas.
E as palavras escrevem livros,
Idealizam filmes
Criam canções
Pintam quadros
As palavras nascem de todo o lado
Brotam de um texto,
De uma imagem,
De um som,
E saiem dos meus dedos,
Dos meus lábios
E dos meus olhos,
Para que as vejas,
Para que te beijem
Para que te toquem
E te acariciem.
Para te fazer sentir,
Para te fazer adivinhar
mais do que dizem,
o todo imenso que fica por dizer.

domingo, outubro 25, 2009

Muros - Chão, bancos, cadeiras e poltronas.


Foto de Paulo Pimenta in Blographo


O trono do rei gordo,
por maior que seja,
é cheio até ao bordo,
o espaço não sobeja.

O senhor marquês,
na sua poltrona,
vai alternando a vez
com a sua matrona.

Até as bancadas,
lá do parlamento,
têm almofadas
em cima do assento.

E o Zé Ninguém,
que é gente vulgar,
tem uma cadeira
para se sentar.

Há quem use os bancos
de um modo especial,
eu sento-me e peço
um prego e uma imperial.

Depois ainda há gente,
de mais baixa condição,
que dispensa a cadeira
e senta-se no chão.

Se não há diferença
no homem todo nu,
porquê dar importância
a onde ele põe o cu?

quinta-feira, outubro 15, 2009

Muros - Não me deixei vencer


Pic: http://www.claybennett.com/images/archivetoons2/us_border.jpg



Naquele dia chegaste sem alegria no rosto
e o olhar vazio de quem já não está.
Fizeste um traço no chão
e eu fiquei do lado de cá.
Tinhas tábuas compridas
Novinhas, polidas, em pinho tratado.
Cavaste um fosso
por cima do risco que tinhas traçado.
Num saco trazias martelos, gazuas,
e um berbequim.
Arrancaste a relva,
furaste a terra, estragaste o jardim.
Saltavam aparas, tábuas pequenas,
e pregos partidos.
E em pouco tempo ficámos divididos.
Deixei de te ver, escondida que estavas
pela paliçada.
Não me deixei vencer,
E com os restos caídos eu fiz uma escada!


"Muros" é um projecto Homens Felizes

segunda-feira, outubro 05, 2009

Muros - Fronteira


Post original aqui.


Desenhei um traço no chão
De um lado um irmão
Do outro, outro irmão.

De um lado ficaram os altos
Os loiros, os magros
Os de olhos claros,
Os de cabelo liso!
Do outro, ficaram os baixos
Morenos, entroncados
De olhos escuros
Cabelos encaracolados.

Proibi palavras e gestos
Cantigas sabidas de cor,
Proibi os olhares ternos
Os desejos e o Amor.
De um lado havia dinheiro
Roupas e o que comer
Do outro era tudo um jogo
Ter de vencer ou morrer.
Dividi países, cidades, ruas,
Construí muros, cavei valas,
E na terra de ninguém
Semeei minas e chovi balas.

Por fim dividi-me a mim,
Pelo meio do coração,
Descobri que a fronteira,
Não é um traço no chão!

quarta-feira, setembro 09, 2009

Enquanto os balões voarem

Enquanto o céu for azul,
E a brisa soprar no meu rosto.
Enquanto a música me encher o coração,
e o calor do sol trouxer rubor às tuas faces.

Enquanto as palavras que semeei dentro de mim
derem fruto.

Enquanto o meu coração tiver olhos,
o meu desejo tiver mãos e pele e corpo,
e o meu sentir tiver boca.

Por mais que a realidade me sufoque.
as notícias me angustiem,
E a morte me persiga.

Enquanto os balões coloridos se levantarem no ar,
há sempre razão para sorrir.




Fot0: USA HotAir

sexta-feira, setembro 04, 2009

Sou Eu

Estava aqui preocupado nos meus pensamentos. Os lapsos de memória que nos últimos meses me têm atormentado estão cada vez piores e ,depois de ler tanto desde ontem sobre o Jornal Nacional da TVI com toda a gente a negar responsabilidade na decisão de acabar com o dito telejornal, cheguei à única conclusão possível: o responsável pelo fim do JN-sexta da Manuela Moura Guedes, não é Sócrates, não é o Governo, não é a Oposição, não é a Prisa e não é a Mediacapital... SOU EU

sexta-feira, agosto 28, 2009

Jovens da Ramada recebem medalha de honra.

Na passada terça-feira, 25 de Agosto, a Associação Sócio Cultural Jovens da Ramada (ASCJR) recebeu a Medalha de Honra da Junta de Freguesia da Ramada durante a sessão solene da celebração do 20º aniversário da freguesia. Foi com imensa alegria que vi reconhecido o trabalho, o que muito raramente acontece, das centenas de jovens que ao longo de vários anos têm abraçado o Projecto Jovens da Ramada.


O Presidente da ASCJR, João Pedro Sousa, recebendo a medalha das mãos da Vogal da Juventude e Multiculturalidade, Ana Monteiro . Com tanta fotografia que publicou com a notícia o Jornal de Odivelas não publicou nenhuma deste momento, se precisarem podem sempre copiar daqui.

Pertencer a este projecto é, sobretudo, acreditar que os sonhos são possíveis. É um espaço de descoberta e partilha onde vivências diferentes se encontram e trabalham em conjunto para um mesmo fim. É, também, um espaço de auto descoberta, várias são as histórias de gente que se aproximou para fazer teatro e a acabou a tocar e a cantar, ou que queriam aprender a tocar e às tantas já estavam envolvidos em projectos de teatro, organização de eventos, tertúlias e até em Marchas Populares.
Os segredos da sobrevivência deste projecto são simples:

- Ter objectivo, quanto mais difícil melhor.
- Ter uma identidade cristã, humana, atenta baseada na multiplicidade dos jovens que se reúnem para conquistar novos desafios.
- Aceitar que a diferença valoriza o grupo.

Depois há ainda o tempero de vontade e capacidade de trabalho. Ao contrário de muitos outros grupos não somos um grupo de amigos que se reúne e daí se gera trabalho, somos um grupo de trabalho de onde nasce amizade.

A ASCJR é apenas a face mais visível de um projecto de dinamização cultural que já deu origem ao Rancho Folclórico da Ramada, ao Grupo de Teatro Alquimia do Sonho, ao Grupo de Intervenção Urbana Homens Felizes e a vários projectos musicais como os Trovas Urbanas, ENTE – Estranhos Numa Terra Estranha, Banda da Feliz Idade e Milkshake Leftovers.

Infelizmente a Câmara Municipal de Odivelas e a Municipália, EM insistem em ignorar o potencial desta associação (a única do concelho para além das associações de estudantes e dos escuteiros) e mais uma vez se esqueceu de convidar o Grupo de Teatro Alquimia do Sonho para a mostra de teatro amador que vai decorrer em Outubro na Malaposta. Felizmente há outras Câmaras Municipais que, para além de estimularem o associativismo juvenil local, ainda abrem as portas dos seus espaços a grupos como o nosso. Deixo aqui o meu agradecimento aos Municípios do Sardoal, Loures, Sertã, Sintra, Cascais, Oeiras e Sobral de Montagraço pelo carinho com que nos recebem. E à Junta de Freguesia da Ramada mais do que pela medalha, por todo o carinho e apoio que nos tem dado ao longo de toda a nossa existência.
Por muito que me nos façam, não nos podemos esquecer que somos felizes!

domingo, agosto 02, 2009

Our secret life




Sou eu... lembras-te?
E poderia eu esquecer a tua voz?
Estou diferente...
Estamos diferentes!

Posso?
Podes sempre...
Agora?
Agora não, mais tarde.

Fiz a peça, mas tu não vieste!
Não me disseste.
Tu fugiste, lembras-te?
Tinha de ser,
não aguentava a pressão,
a incerteza, a mentira...

Tens ido a Sintra?
Há sítios mais mágicos...
Quais?
Praias de areia fininha onde és sempre menina...
Cala-te.

Falo de mais?
Falas sempre de mais!
Porque tu não me ouves...
Parvo!
Queria perceber... Explicas-me?
Talk to the hand...

Já sei: ... 'cause the face isn't listening!
Aprendeste algumas coisas comigo...
É, eu gosto muito de aprender, nem sempre gosto é de ser ensinado!
Estúpido!

Há coisas que não mudam...
Muda tudo...
Eu não mudo...
Talvez seja isso que tens de pior em ti...
A imutabilidade?
A falta de consciência!

Sentes culpa?
Sinto sempre...

Vais desligar?
Vou...
Voltamos a falar?
Um dia... who knows?

Vejam bem... 80 anos.


Parabéns Zeca pelo teu 80º aniversário.

Prenderam-me as minhas mãos e os pés
Vendaram-me os olhos com a informação
Calam-me os gritos na garganta
Vampiros desta nação
Já não se escondem nos becos
Pavoneiam-se na televisão
E numa tertúlia tardia
Uma miúda engraçada
Que nunca te viu cantar
Solta o que tem na garganta
E a emoção é tanta
que oiço Portugal a cantar!



Lua Cheia



Lua amiga e companheira

Que iluminas o breu secular

Da noite longa e derradeira

Em que serena respiro

E nas estrelas aspiro

A ânsia de te amar.

Redonda, grande e branca

Clara, amiga e franca

Ó lua cheia eterna

Que na tua beleza serena

Encontro o sentido de amar

E a vontade de sonhar

Luar brilhante obscuro

Em que profundamente procuro

O sentido da minha vida

Que por ironia do destino

Pensava para sempre perdida

No ser de outrora sem tino.


L. Santos

quinta-feira, julho 09, 2009

Contos Infantis II - A Branca de Neve



"Pouco depois de ter mordido a maçã, Branca de Neve adormeceu profundamente."

Contos Infantis I - O Pequeno Polegar



"O Pequeno Polegar roubou ao Gigante as botas de sete léguas"

Isólito - 1

Este ano foi me dado
um privilégio especial
corrigir provas do sexto
a um nível nacional.
Recebi duas escolas
cinquenta provas no total
Vou-vos aqui falar
da que achei sensacional

Na décima terceira questão
Sugeria o enunciado:
com o material solicitado
desenhe uma circunferência
O aluno com imaginação
E com todo o seu cuidado
Desenhou-me um quadrado
com toda a eficiência...




Nota: O quadrado está bem desenhado e tem
exactamente os 8,0 cm pedidos no enunciado.

quarta-feira, julho 08, 2009

Sinto

Sinto a tua falta, há mais de dois anos que te não vejo. Tenho-te, no entanto, presente em cada pormenor: o som da tua voz, a luz do teu sorriso, a acutilância do teu olhar. Ainda te vejo saltitando descalça a caminho da casa-de-banho, e quando me apanhavas a rir desculpavas-te que não sabias andar sem saltos altos. Era leve então o teu riso, o teu perfume enchia o ar como a tua presença enchia o meu mundo. E eu, sem saber, era feliz. Sinto falta de ir às compras contigo, de escolhermos as especiarias, os ingredientes secretos, de inventarmos pratos novos. Sinto falta de uma boa refeição, de comer. E de repente ocorre-me tudo o que era nosso, as nossas músicas, os nossos filmes, as expressões de que nos apropriámos. E agora é tudo recordações, nada mais. Sinto falta de ti, sinto falta de tudo. Tento virar-me mas não consigo. Não me habituo à exiguidade deste pequeno quarto, à constante escuridão e a este cheiro adocicado a terra húmida.

sábado, junho 27, 2009

Poetry Slam - 3

Foi giro, foi sobretudo uma oportunidade para aprender.

Estou, por exemplo, a tentar aprender a ver o lado espirituoso dos versos da Brisa:


Foto em http://bibliotecariodebabel.com

Mas está difícil.

Siginficado de espirituoso

espirituoso | adj.

espirituoso (ô)
adj.
1. Que tem espírito, que tem graça.
2. Que tem espírito de vinho ou álcool.
Pl.: ...osos (ó).

Poetry Slam - 2

Absolut Poetry : Concurso / Torneio de Poetry Slam

Musicbox, 26 Junho 22h30

Considerado uma das mais recentes e cosmopolitas tendências da noite das grandes capitais, o Poetry Slam tem alcançado enorme sucesso nos bares de Berlim, Nova Iorque, Paris ou Londres. O conceito é simples: basta escolher um tema, tratá-lo de forma crítica e espirituosa, adicionar algumas rimas e declamá-lo de forma dramática no espaço de três minutos no palco de um clube. Emblema da cultura urbana, este novo movimento dá primazia à palavra e aos poetas e convoca todos aqueles que queiram exprimir e transmitir a sua arte através da palavra dita.

Lista dos seleccionados para a final do Torneio de Poetry Slam:

1. Alexandre Francisco Gomes da Silva
2. Alexandre Oliveira
3. Ana Reis
4. Brisa Ramos
5. Jorge Vaz Nande
6. Luis Carvalho
7. Pedro Kruss Silva
8. Tiago Martins

O júri será composto por Ana Padrão, Fernando Alvim, José Luís Peixoto, Rui Zink, Vitor Belanciano e Tiago Bettencourt. Mestre de Cerimónias : J.P. Simões

Poetry Slam - 1



Concurso de Poetry Slam

Em Junho, o MusicBox acolherá o primeiro concurso de Poetry Slam em Portugal.



Musicbox @ 26 Jun., 22h30


Considerado uma das mais recentes e cosmopolitas tendências da noite das grandes capitais, o Poetry Slam tem alcançado enorme sucesso nos bares de Berlim, Nova Iorque, Paris ou Londres. O conceito é simples: basta escolher um tema, tratá-lo de forma crítica e espirituosa, adicionar algumas rimas e declamá-lo de forma dramática no espaço de três minutos no palco de um clube, neste caso, o MusicBox.

Inserido na rubrica Absolut Poetry do Festival Silêncio! este concurso contará com 8 participantes e um júri composto por 6 convidados (confirmados: Fernando Alvim, Rui Zink, José Luís Peixoto, Ana Padrão). O músico, compositor e escritor JP Simões será o anfitrião da noite.

sábado, junho 20, 2009

As asas servem para voar




Passeávamos os dois, ao fim da tarde, como às vezes fazíamos. Ele, na altivez desengonçada dos seus três anos, segurava a minha mão ficando quase em bicos de pés. A certa altura disse-me:
- Sabes, pai, eu sou um pássaro!
- Não sejas parvo, és um menino, estou sem paciência para essas coisas!
- A sério! Tu não sabes mas eu tenho asas!
- Tive um dia terrível filho, desculpa mas não estou com paciência para essas fantasias!
- Tu não sabes que eu tenho asas porque eu as tenho escondidas...
- Sim, sim...
- Sou como os pombos, vês? - disse apontando-me um grupo de pombos que debicava um pouco mais à frente. - Quando não estamos a voar temos as asas escondidas.
- Então e o que fizeste hoje lá no colégio? - tentei mudar de assunto e seguir uns conselhos de uma revista que diziam que devemos mostrar interesse pelas actividades deles.
- Viste aquele pombo que levantou vôo? Agora já se vêem as asas!
- Queres parar com essa conversa antes que me irrite? Comeste o almoço todo?
- Comi o milho...
- Chega! Não quero saber mais disso!
Chegamos aos relvados da Expo, a calma do estuário e o comprimento infinito da ponte ajudavam-me a sublimar algumas das minhas tensões:
- Vá, aproveita e vai brincar um bocadinho para a relva!
Ele olhou-me nos olhos com aquele sorriso malandro de quem me percebe mais que o que eu julgo possível. Largou a minha mão e correu pelo relvado em direcção ao rio. Parou no cimo de uma elevação de terreno, acenou-me, e perante o espanto do meu olhar abriu as asas que tinha escondidas e voou rindo sobre a minha cabeça.

quarta-feira, maio 27, 2009

Ai Menina

Ai Menina o meu desejo
Não pode ser condenado,
Grande a pena que eu apanho
Por me ter apaixonado.

A correr pelos caminhos
Na loucura de te ver,
À noite sonho contigo
Com o momento de te ter

As palavras não me ajudam
A dizer o que aqui vai.
Há mil coisas em meu peito
Mas daqui nada me sai.

Se te apanho ao pé de mim
Conto-te tudo o que sinto,
Digo tudo de uma vez
Ponho o branco no tinto

O teu olhar mexe comigo
Com o teu sorriso fico tonto
Sonho provar o teu beijo
Mas fico por aqui e pronto

Ai Menina se soubesses
Como eu ando apanhado,
Acredito que fizesses
Tudo que eu tenho sonhado!

domingo, maio 24, 2009

A Noite não tem plural

Em segredo visito as areias da praia
Em que tu te estendes.
Em segredo te digo palavras de amor
Que só tu entendes.

Em segredo te grito o que trago no peito
E me trava a garganta.
Em segredo penteio entre os dedos cabelos
De oiro e de esperança.

No segredo da noite fui homem maduro
Lavrando em teu peito.
Fui menino brincando em recreios vadios
De um lar já desfeito.

Andei à deriva ansiando o teu sinal
Esta noite, não tem plural.

Nas bocas caladas plantámos um beijo
De fogo e ternura.
O sangue e saliva deram de beber
À nossa loucura.

E corri num abraço apertado e profundo
Para dentro de ti.

Num segundo fui rei, e no outro morri.

Esta noite, meu corpo se liberta
Num voo final.

Esta noite, não tem plural.

My Little Drummer Boy

terça-feira, abril 28, 2009

EXAGEROS - Mário Henrique Leiria



Mário Viegas in Palavras Ditas


EXAGEROS

O Alfredo atirou o jornal ao chão,
irritadíssimo, e virou-se para mim:

- Estes jornalistas! Passam a vida a
inventar coisas, é o que te digo. Então não
afirmam que, no Sardoal, foi encontrado um frango com três pernas!
Vê lá tu! É preciso ter descaramento.

Ajeitou-se melhor no sofá e, realmente indignado, coçou a tromba
com a pata do meio.

In Contos do Gin Tonic de Mário Henrique Leiria

segunda-feira, abril 27, 2009

Sabes-me

A tua boca soube-me a melância
E a sede urgente do meu desejo
Saciou-se no gosto desse beijo

A tua boca soube-me a canela
Naquele outro beijo dado a medo
Sabe-me a canela o teu segredo

A tua boca sabe-me a pimenta
Com a lingua entre os dentes de marfim
Melancia, canela e depois... sabe a mim!

Cadáver Esquisito

Um lápis de carvão riscou na folha branca um risco azul intenso e frio e o menino que vestiu o bibe foi professor dos mais velhos e dos pais deles, o país em que moravam era turvo como as borboletas que nem são brancas nem amarelas e o pai -lo de castigo, não que ele merecesse, mas era para o seu bem e tal seria o procedimento adequado para um cadáver morto que tinha automatizado uma escrita adormecida há muitos anos mas que desperta cedo e depois anda o dia todo a falar mal dos engenheiros e a ouvir as canções dos xutos e pontapés na bola e o Cristiano Ronaldo e o resto dos brasileiros já não vamos á África do Sul, e eu até queria conhecer Durban, li um livro dele uma vez, mas ele só tem um livro digno desse nome, porque o desassossego tem esses a mais para ser um livro, de crianças como os de banda desenhada que também pode ser Manga, a manga é uma fruta que vem da mangueira que por sua vez serve para regar o próprio Jardim uma espécie de auto-suficiencia muito apregoada que ele defende mas não abdica dos privilégios da Madeira, que está cada vez mais cara e está a ser substituída por aparite e aglomerados que é uma espécie de trabalho de Penélope porque é voltar a colar o que se esteve a esmilhafrar anteriormente, era tudo mais barato, sobretudo quando pagávamos em escudos, ou contos, não percebi bem se a moeda antiga era o escudo ou o conto, porque toda a gente que fala do tempo do escudo apresenta o resultado em contos. Temos de ser tratados... com urgência.

domingo, abril 26, 2009

Se me deres

Se me deres um olhar serei visível
se me deres um sorriso terei amor
Se me me deres o teu sonho
serei contigo um sonhador

Se lavrares em palavras
uma seara de trigo louro,
serei tecelão de um poema
numa manta azul e ouro.

Se me deres a luz vencerei a noite
No teu ombro aquecerei a madrugada
Guardas na boca a onda
que desmaia ansiosa na areia parda

E sem nada que me dês
resta-me a esperança...
Eu sou homem por fora,
por dentro sou criança!

terça-feira, abril 21, 2009

A fronteira não é um traço no chão

Separa o monte, o rio, a escarpa,
separa o homem, a ideia, a nação
separa o rico do pobre,
não é um traço no chão.

Separa, o jovem dos outros,
separa irmão de irmão,
separa marido e mulher,
não é um traço no chão.

Separa a terra do mar,
é no horizonte divisão,
separa isto daquilo,
não é um traço no chão.

Separa o Outono do Inverno,
a Primavera do Verão,
separa o Amor de tudo o o resto,
E não é um traço no chão!

quinta-feira, abril 02, 2009

Aos solavancos

Dizem os da ciência,
do alto do seu saber,
com um discurso distante.
Que a Terra corre constante!

A Terra,
planeta dos meus encantos,
redonda de quatro cantos,
não avança certinha
mas sim aos solavancos.

E tenho a certeza do que digo,
e acho que o posso provar,
basta-me estar contigo
para a sentir... como digo?
para a sentir... solavancar!

Às vezes corre ligeira.
como um coelho com pressa,
e eu vejo-a passar.

Mas bastou-me olhar para ti,
e nesse momento eu senti,
a Terra inteira a parar!

terça-feira, março 31, 2009

500 negros nus

Um bateau mouche se afundou no Sena
Numa tarde soalheira de Verão
Ninguém morreu, foi perda pequena
Só se perdeu a embarcação.

Mas as noticias sensacionais
Encheram os títulos dos jornais.
Para ter a mesma atenção
morreram 500 numa embarcação.

500 negros nús, na senda da esperança
em bateaux mouches de nozes
que a terra não alcançam.

500 negros fugindo da fome e da guerra,
500 corpos no mar
que nenhuma família enterra...

domingo, março 08, 2009

Mulher (de André Carvalho)

Mulher é um substantivo
que resiste às tempestades
que é feminino e altivo
e tão dado a liberdades
como ao amor mais cativo;
É uma linha num esboço
que curva no pescoço,
que se debruça nos seios
a mirar olhos alheios
e depois desenha o torso
perdido em devaneios
e novos rotundos enleios.

Mulher é água no deserto
que deixa os rapazes cheios
de sedes e de anseios;
é um lugar longe mas perto
onde uma cabeça pode
descansar sem receios.

Mulher é sextina, é ode
é quadra popular, é soneto
é uma canção tocada
por um jovem no coreto.

Mulher rainha por um dia
por toda a vida coroada:
quem a vê e quem a via
é cantada, celebrada
é pouco menos que nada
e um pouco mais que tudo,
é um vislumbre desnudo
num robe de seda pura.

Mulher é o querer, é o vício
é a resposta, é a cura,
é um momento propício
à beira dum precipício.

Mulher é uma aventura
uma guerreira e uma mãe
é um gesto de ternura,
é o porquê e o quem
e ao cair a noite escura
é uma mulher também.

André Carvalho in Valetes de Copas

domingo, março 01, 2009

Algarviadas


Parece que é definitivo: o animal oficial da Casa Branca, no tempo Obama é o cão-de-água algarvio.
Talvez o presidente americano pudesse ainda adoptar alguns outros produtos característicos dessa fantástica zona:
- A Laranja como fruto oficial.
- Os frutos de sequeiro
- As aguardentes de Figo e de Medronho.
- Os doces regionais.

Mas terá de ter muito cuidado na escolha das músicas:

- Se entra pelo baile mandado, vai terminar tudo num corridinho.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Tempo



Quis ser todo tempo
ter todo o tempo
ter tempo

Quis ser meio-dia
na tua paixão
mas não passei das seis e meia

Quis fazer de um segundo
a síncope de um coração
na urgência de viver

Cala em teus olhos esta dor
e esta certeza.

o Amor é tudo,
mais que tudo
o Tempo é amor.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

O Salto

Abri as asas do medo
uma rocha nua
O luar fremente
beijos sentados no banco da frente
linguagem crua

A ave gritou
voando alto
Eu olhei para ti
E apanhei-a num salto.

domingo, fevereiro 08, 2009

Só Deus tem os que ama


James Byron Dean, nasceu a 8 de Fevereiro de 1931 em Marion (Indiana).

Não há muros,
nem portas nem janelas,
que me abrandem a vontade de viver.

Não há curvas nas estradas, que me façam morrer.

Porque o meu corpo que aqui está,
que trato com mil cuidados, é o caixão
em que tenho os meus sentimentos guardados.

Liberto-me do corpo exangue,
que pode ir para o inferno,
porque o amor que tenho é de um viver eterno.

E Deus olha para mim,
e há um dia em que me chama,

porque amar é divino, e só Deus tem os que ama!

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Vida de Marinheiro (a João Aguardela)





Quantos bares ficam ainda por navegar
neste cinzento molhe de onde partes
Recolhe-te hoje o Caronte
na sua barca das Artes

Levas o grito na garganta
um canto com harmonia
Levas o peito liberto
da terminal agonia

As Tágides levam-te ao largo
em nós deixas a lembrança
de um acordeão que toca
enquanto o cantor dança.

O músico tem a alma por fora
do corpo que os pais lhes emprestam
E na suprema composição
deixam-nos presos à saudade
enquanto por fim se libertam.


A João Aguardela (1969/2009)

terça-feira, janeiro 20, 2009

Os meus dedos

Ergui para ti palavras
sulcando no teu ventre
estradas nuas
arroio fugaz, impertinente
e fecho as minhas mãos
nas tuas.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Chamas de loucura

Chamas de loucura
árvores centenárias
moralidades inúteis
fogueira do ciúme.

Beijos rasgados
toques urgentes
carnes quentes
dedos de lume.

E no fim as searas
os momentos de ternura
sentimentos livres
que tu chamas de loucura.