domingo, dezembro 02, 2007

Umas vezes me espanto, outras me envergonho!

Um soneto de amor (Sá de Miranda)

Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si
e vou tresvaliando como em sonho.

Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m´espanto às vezes, outras m´avergonho.

Que, tornando ante vós, senhora, tal,
quando m´era mister tant´outr´ajuda,
de que me valerei, se alma não val?

Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.


Li uma citação deste soneto no Abrupto e de imediato percebi o que sentia. Decorreu este fim de semana a entrega de prémios do Festival de Microfilmes de Lisboa.

É efectivamente espantoso que se tenha a coragem de levar para a frente uma iniciativa destas, que proporcionou que mais de 500 obras viessem a público. Uma iniciativa rara destas em terras portuguesas é de espantar qualquer um.

Mas envergonho-me de ter incentivado tanta gente a participar, e ver que no final o filme escolhido para representar o espírito deste festival tenha sido vergonhoso. A ver: não é original, não tem qualquer relação com o nosso país, é um filme narrado em francês legendado em inglês. Diz ter sido feito com um telemóvel, mas a legendagem levanta grandes interrogações quanto a isso. Não tem qualquer mensagem e num festival que excluía filmes com os conteúdos pornográficos ou violentos, a temática da agressão gratuita do Zidane ao Matterazi é a narrativa deste microfilme - uma vergonha!

Espanto ainda senti quando não quis acreditar que fosse verdade o que estava a ver, mas envergonhei-me de não ter percebido que um festival organizado pelas "Produções Fictícias" não era para ser levado a sério!

Esta situação afronta o coração e deixa a língua de Camões, mais uma vez muda.

Moral da história: se num festival chamado Microfilmes Lisboa o trabalho nacional não é reconhecido, onde será?

Sem comentários: