domingo, dezembro 12, 2010

Não tinha amanhã nem madrugada




Não tinha amanhã nem madrugada
nem desejos como as gentes
que vivem silenciosos mais um dia
Não tinha amanhã nem madrugada
Não tinha mulher, amante ou namorada
Não tinha nada

Não tinha amanhã nem madrugada
mas tinha uns olhos vivos
como brasas, e via as pessoas e as casas
e observava. O tempo nunca passava.
Nunca passa, sobretudo para quem
vive deitado com a desgraça
a fome o vazio,
o mijo morno, o chão frio.

Não tinha amanhã nem madrugada
mas a cada novo dia, renascia
e nas mão trémulas segurava um caderno
de argolas com manchas de café
nódoas de fruta e migalhas de pão
e as folhas estavam amarelas
de tanta chuva miudinha cair nelas.

Era um homem, à beira da minha estrada,
e vivia ali, como quem não tinha
amanhã nem madrugada!

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