terça-feira, outubro 04, 2005

Ter loucura sem ser doida

Há quanto tempo foi?
Há quanto tempo foi que te deixaste ir na loucura sem ser doida?
Estava o Sol exactamente no mesmo sítio,
E no ar havia os risos de gente que já cá não está.
Há quanto tempo foi?
Há quanto tempo foi que a porta se fechou,
E tu de pé eras maior que o mundo todo?
E os tons de azul, o silêncio e os cheiros inundavam o ar,
E as bocas se aproximaram, muito devagarinho para se beijar?
Há quanto tempo foi?
Há quanto tempo foi que a janela se fechou,
E a cama testemunhou a loucura de estar ali,
Completamente,
Um do outro... como se nada mais existisse senão nós?
Não seria isso ter loucura sem ser doida?
Há quanto tempo foi?
Que os nossos corpos se tocaram, se sentiram, se amaram,
E no suave mumúrio da voz,
dissemos pela primeira vez, "nós"!
Há quanto tempo foi?
Há quanto tempo foi que vivemos sem leis fatais,
Que não quisemos entender, apenas amar e viver?
É bom ser inteligente e não entender!
É bom quando para nós o amar é viver,
É bom quando sentimos que a vida nos corre nas veias,
Quando sentimos que o coração quer rebentar,
Quando o desejo cresce, um no outro até aos momentos finais,
E no momento do prazer, toda a alma dizer: "Quero mais. quero mais"?
Há quanto tempo foi?
Há quanto tempo foi que celebramos a vida, a alegria e o amor?
Há quanto tempo foi que a porta se fechou pela última vez,
e o cheiro da pele molhada se dissipou no ar?
Não preciso de entender, vivi e sei que foi verdadeiro,
Recordo cada momento, cada sentimento, sem último e sem primeiro!
No momento em que nos amavamos mais ninguém podia amar,
Porque todo o amor do mundo, do mais discreto ao mais profundo,
Estava lá connosco, no ar.
Há quanto tempo foi?

1 comentário:

Paula Pires disse...

Como é apanágio, leva-nos a sair fora da caixa e a pensar, neste caso a recordar ou interrogar acerca de: Há quanto tempo foi…que alguém mexeu contigo e que quiseste entregar à loucura?! Há um ano, um mês, ou quiçá há uns meros dias.
A sensação é excelente, e as tuas palavras transportam-nos para o momento.